E digo mais: até quando o futebol será amado?

Por Emiliano Tolivia (@emilianotolivia)

Capeta em forma de guriTenho dois amigos a quem carinhosamente chamo de “ os capetas”. Quando estou com eles, ainda mais ao mesmo tempo, a Bruninha sabe que a resenha será interminável, e a noite vai longe. Pois é… Conta já paga, saideira por conta da casa no fim, francesada engatilhada. Até que surge a temida frase:

– E digo mais!

Pronto. Pede mais um chope no copo de plástico porque lá vem mais meia hora de história.

O assunto Maracanã poderia ter rendido um post do tamanho da pendura de uns e outros no Bip Bip, o pequeno grande bar do Alfredinho, em Copacabana (leia aqui o primeiro texto). É melhor, porém, ir bebericando aos poucos. Então, como dizem os capetas, desce mais um porque… “e digo mais!”.

Sem mais delongas…

Crescemos pedindo aos nossos pais que nos levassem ao Maracanã torcer para o time que somos fãs. Aprendemos lá na tenra idade que é mais legal levar foguetes e bandeiras e, para sentirmos mais emoção, muito melhor que a cadeira numerada é sentar na arquibancada. Assim fomos educados, assim nos apaixonamos pelo futebol.

Pai e filho nos estádios: até quando?A tarefa deve até ter sido fácil para os patriarcas. As cores das bandeiras, os personagens, os ritmos, as músicas. O cheiro. Não, não é o odor de xixi, como jocosamente já ouvi por aí. É uma espécie de terra-molhada de estádio, algo que prenuncia toda a catarse coletiva que está por vir. E agora pergunto: em meio às modernas e caríssimas (tanto para erguê-las quanto para frequentá-las) Arenas, alguém acredita que será moleza passar tudo isso para filhos e netos?

Ainda somos resquício de uma época em que lazer era jogar bola ou assistir a futebol. Uma geração forjada por pais e avôs que iam ao estádio ver juvenis, juniores, aspirantes e profissionais num domingão. Hoje, na era do entretenimento, com videogame, cinema, ipod, ipad, iputz, além de skate, surfe e sei lá mais o que, um garoto de dez anos tem o soberano direito de achar um 0 a 0 transmitido pela TV entediante. E vai sumindo aquele velho hábito de, ao meio-dia, à beira da praia, o moleque afastar a cerveja no isopor puído, puxar uma das pernas do velho e implorar, choroso, “vamos ao jogo, pai, me levaaaaa, paaaai”, sendo que se trata de um Fluminense x Cidade Nova, debaixo de um sol de 49ºC. No guarda-sol.

Neymar e Messi: e se seu filho for Barça?As Arenas são cada vez menores porque as médias de público não param de cair. Era mais fácil se apaixonar pelo rádio. Só tinha Pelé em campo. A TV ajuda a manter a chama. A acendê-la, não. Ali, é desigual. Na tela de LED, o menino vai se embasbacar com Messi e Cristiano Ronaldo. E um belo dia, como uma filha que se enche de coragem para anunciar a gravidez na adolescência, dirá que torce para o Barcelona. Soa familiar, não? Nada é por acaso.

Da forma como estão tocando o negócio, torcedor de futebol vai se juntar à água potável, ao petróleo e às baleias. Uma hora acaba. Mesmo que não estejamos mais aqui para presenciar. Até quando o futebol será amado?

Aí vem meu primo e me diz…

– Ei, eu vi lá no seu blog que você não gostou do novo Maracanã. Sério mesmo? – pergunta meu primo de 14 anos, num misto de surpresa e desdém.

Pedrinho tem sorte de ser filho e neto de fanáticos torcedores. Já é um rubro-negro chato como o pai. Mas confesso que por vezes o noto mais empolgado com o Miami Heat. A empolgação em contar que foi a dois jogos de NBA contrasta com o pouco esforço em tentar me provocar dizendo que eu vi dois títulos brasileiros no Engenhão, enquanto ele acompanhou um no Maracanã. Ele é fruto dos novos tempos, que vêm com tudo. Não vai acreditar em velhos contando a magia de uma tarde de futebol. Normal. O problema é ele não ter a oportunidade de conhecer, de comparar, de escolher. Para quem curte quadra americana, o Novo Maracanã é “legalzinho, vai”.

Quadra do Miami Heat: é claro que é legalAos 12 anos, fui com minha mãe ao Madison Square Garden – que certamente está ainda melhor – e fiquei bobo. “Lugar marcado? Nossa! Restaurantes? Deu fome! Lojas com vários produtos oficiais? Quero tudo!”. Uma criança se deslumbra. Era fã de NBA. Depois, comecei a achar esquisito. Torcida cantando o que aparecia no placar, pessoas contidas, ninguém se abraçava, não tinha gol, iam embora antes do fim… Adorei o passeio, mas, de certa forma, deu saudade das Laranjeiras. Tive vergonha de comentar.

Vai um bebê-conforto?

– Não entendo essa questão que, de repente, conforto virou obrigatório no estádio. Nunca vi alguém dizer “olha, foi um jogão, mas a cadeira me matou as costas, saí meio empenado, não volto mais”. Não precisa se bagunça, mas há exageros – debocha uma amiga.

Show de Rock: molezaDe fato, é curioso que não se reclame disso em shows de rock, por exemplo, onde todos ficam em pé, apertados, distantes de banheiros e bares, por muito mais que duas horas. Pagando muito mais caro, como em um Rock in Rio. E ainda tem a tradição (olha ela aí) de rodinha que simula briga. Se for axé, do nada a cantora inventa um “todo mundo pra laaaaaaaaaaá, todo mundo pra caaaaaaaaaá” e ninguém reclama que estava sobre a grama 7B antes do caos.

Como disse o leitor Daniel Banho, agora vamos pedir para cantar “Fear of the Dark” acomodados em um assento feito de resina plástica de polipropileno? Exigir um comportamento de chá das cinco ao público de Lady Gaga, Beyoncé e afins, mesmo que nem nos passe pela cabeça ir a esses shows, pois queremos uma sociedade “civilizada”? Não me parece uma boa ideia.

Hora de ir ao boteco do Alfredinho

Mas meu barato é samba, e no Bip Bip o difícil é sentar. De repente, explode em uníssono a animada roda de quinta-feira.

Samba do Bip na quinta– Hoje eu vou sambar na pista/Você vai de galeria/Quero que você assista/Na mais fina companhia/Se você sentir saudade/Por favor, não dê na vista/Bate palmas com vontade/Faz de conta que é turista…

– E essa vai pro Maracanã, ó… Quem não o conhece não pode mais ver pra crer/Quem jamais o esquece não pode reconhecer – completa uma amiga, de bate-pronto, fazendo graça com a música de Chico Buarque.

Quem te viu, quem te vê, de fato. O Maracanã já foi retrato de igualdade no Rio de Janeiro, quando, salvo poucas exceções, colocava 150 mil no mesmo barco. Umas nas arquibancadas, outras nas cadeiras ou geral, mas quase todas, sim, desconfortáveis. Havia uma democracia ali, de apenas duas horas, mas que mantinha ombro a ombro prensados o rico e o pobre. Passadas as primeiras grandes reformas, o Mário Filho carregava consigo uma faceta que escancarava a desigualdade do Rio. Quem tinha mais, pegava os melhores lugares. Víamos ali um claro resumo da cidade. Mas estavam todos ali.

Pois o Novo Maraca ainda segue sendo um retrato da desigualdade carioca. Só não é mais um resumo da cidade. Agora, só cabe nele o público de bom poder aquisitivo.

Bela imagem do que já foi o Maracanã

– Toda vez que ouço algum desses políticos engomados dizendo que tem de reeducar o torcedor, fico louco. Tem de reeducar esses caras, ensinar a não roubar, a não fazer o que fazem, eu hein. Do nada, virou lei ficar sentado e mudo? Ninguém consulta, ninguém pergunta nada ao cara que vai ao jogo? – esbraveja um camarada ao lado.

E eu concordo. Apesar de termos aprendido lições de malandragem nos estádios, não queremos que nossos filhos passem pelos mesmos perrengues. Entrar por aqui, sair por ali, não correr se houver tumulto, ter cuidado com a carteira na entrada, tudo isso nós vamos ensinar. Evidentemente, é preciso que haja segurança. Mas quando o Estado quer, faz direito. A quem criar tumultos, a Justiça apenas. De preferência, com a colaboração dos clubes.

Tudo isso é um engradado de litrão caindo da escada direto no pé do futebol. Jogo de Seleção e inauguração de Arena sempre vão atrair 70 mil pessoas. Com o preço exorbitante que for. Acreditar que mais de um punhado de gatos pingados vá pagar R$ 100 para ver Flamengo x Quissamã, aí é outra história. Claro que ingênuos os novos donos da bola não são. Será o momento de, passada a novidade, voltar a atrair o velho torcedor. Mas este é um trouxa, sempre retorna. Resta saber se com seus filhos.

– E digo mais!

Não, chega! Vambora, capeta.

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Arena Maracanã: não fui e não gostei

Por Emiliano Tolivia (@emilianotolivia)

novo maracanaNão fui e não gostei do novo Maracanã. Depois de três anos de espera e tendo que aturar Engenhão e afins, jamais poderia imaginar que o sentimento com o velho templo do futebol seria de tristeza, de indiferença. Não sou saudosista nem me mantenho preso ao tempo, refratário a novidades, mas tampouco me deixo levar por um modernismo deslumbrado que devasta culturas e padroniza hábitos.

– Acabaram com o Maracanã… Que coisa horrível que ficou… – diz, com ar debochado, um grande amigo ao me ver, claramente pensando o contrário.

Recorro a uma rápida história. Existia em Copacabana um bar chamado Ponto Azul. Não havia cerveja mais gelada no bairro. Só vinham batizadas de mofada, fiofó de foca, canela de pedreiro, sempre sorvidas em uma agradabilíssima varanda. Preços honestos atraíam o que Copa tem de melhor: a mescla de todo tipo de pessoas. Compraram o boteco e o reformaram. Reabriu com o nome de Stalos. Trata-se de uma mistura de casa de sucos com boate, decorada com neon, TVs LED que mostram milk shakes e tudo o que for possível imaginar de mais brega que exista no mundo.

Na única vez em que lá estive, me foi dito que o chope não tinha colarinho por estar muito gelado. E foi daí para pior, num ambiente agora fechado, com ar condicionado, perfumes florais e um público formado somente por mauricinhos e patricinhas. Sim, o bar acabou, sem choro nem vela, mas com muito lamento.

– Vamos correndo para um botequim de verdade, pelo amor de Brahmará! Vamos ao pé mais sujo que você conheça em Copacabana, só para purificar – pediu um camarada que me acompanhava nessa furada. E lá fomos ao Tradição, um cospe-grosso terrível e lindo na Miguel Lemos.

Voltando à provocação do amigo…

Sim, aquele Maracanã, que era a segunda casa de todo torcedor carioca, acabou. Ficou bonito, confortável e tudo mais que uma obra de R$ 1,2 bilhão tem a obrigação de apresentar. Apenas não é mais o velho Mário Filho.

Se estava tudo podre, se era realmente necessário jogar quase tudo abaixo, que fosse feito, ok. Mas por que não manter o formato original, com uma arquibancada gigantesca e cadeiras inferiores indo até o campo? Porque a Fifa tenta – e consegue – dar um padrão único ao futebol onde ela consegue chegar e impor seus interesses por cima das leis nacionais. Tudo com beneplácito das autoridades e palmas de boa parte de uma sociedade permissiva, acrítica e iludida, que aguarda ávida por cidades de espigões espelhados e letreiros luminosos, algo como Nova York, Las Vegas ou Hong Kong.

Incomoda sobremaneira que, ao ver o Maracanã por dentro, ainda que pela televisão, não seja possível identificá-lo. Em jogo cheio, sem as pistas dadas pela cor das cadeiras, não é possível afirmar, com 100% de segurança, que não se trata do Mineirão. Ou alguma – argh – Arena em Joanesburgo. Quiçá em Kiev (vejam a foto abaixo). Mesmo a cobertura já não entrega. Impensável para o estádio com mais personalidade que havia no planeta.

Conhece este estádio? Maracanã? Não, este fica em Kiev...

Conhece este estádio? Maracanã? Não, este fica em Kiev…

O que está feito, paciência. Uma dimensão de campo maior aqui, uma rede véu de noiva ali, isso será possível retomar. Pequenas relíquias que faziam toda a diferença. No entanto, tenho muito medo sobre o que esta frustrante Copa do Mundo pode deixar de legado em termos de público. Sabe-se que, no Mundial, os torcedores são de qualquer coisa, menos de futebol. Ainda mais em um país com tradição de ter péssima torcida de Seleção, fria, corneteira, “coxinha”. Amamos nossos times e beber cerveja no Clipper após jogo do Brasil. Receio que ficaremos cada vez mais pelos bares, distantes do Maracanã, ocupado apenas por “eles”.

– Eu defendo a modernidade. Mas derrubar a minha arquibancada, me dar uma caxirola e me obrigar a sentar não é modernidade, $@#%$#! – esbraveja meu irmãozinho Dudu Sarmento em meio a incontáveis saideiras no Galeto Sat’s. 

Macaranã de verdade: já eraHonestamente, não consigo entender o mundo moderno. O torcedor de futebol está indo aos jogos de basquete para poder torcer como gosta. O fã de vôlei vai às partidas da Seleção para conhecer a – argh – Arena Maracanã. Não tem como deixar cada um na sua? Não, é cada macaco em outro galho. E, no futebol, é sentado no galho marcado, por favor. Nada de bumbos, baterias, sambas, essas coisas horrorosas. Já inventaram caxirolas ou uns porretes infláveis para o espectador se sentir quase um hooligan. Mas só quando o animador de festa mandar.

O resultado é que temos as camadas pobres alijadas dos jogos. Nas plateias, quem pode pagar R$ 8 reais em um hot-dog. E nem adianta tentar comer antes no Bar dos Sports porque a Prefeitura o proibiu de servir almoço (!) antes das partidas.

O discurso vazio, óbvio e politicamente correto

Mais triste e desanimado ainda fico ao ouvir alguns bons colegas defenderem essa mudança. O argumento de que “em cinema ou teatro é assim, é preciso reeducar o torcedor” é risível. É comparar quiabo com física quântica. Quem vai a cinco peças ou filmes por mês? Quem xinga o ator se ele erra ou morre no fim? Na verdade, difícil é achar uma comparação que preste entre um jogo de futebol que se preze e os exemplos supracitados.

Havia muitas coisas erradas no Maracanã? Claro! Cheiro de xixi, banheiros sem luz, corredores quebrados, nada disso é legal. Evidentemente, era necessário um banho de loja. Mas a total descaracterização de um estádio e a elitização do público, não. A mídia inglesa ficou impressionada, da pior forma possível, com nosso comportamento no amistoso contra a Inglaterra. Silêncio e vaias. Mas ela própria matou a charada: não há instrumentos, não há samba, não há torcida de clube.

Quando mega eventos enfim chegam ao país e pensamos que vamos avançar, na verdade provamos, mais uma vez, como chegamos sempre atrasados. Com a maior média de público do mundo, o Campeonato Alemão preserva áreas nos estádios sem cadeiras para que torcedores assistam ao jogo em pé, com bandeiras e demais apetrechos. E, para quem prefere sentar, fica destinada a maior parte da Arena.

Final da Copa da Suíça. Acredita?Na Suíça, sempre ironizada por nós brasileiros como modelo de público que bate palmas, na verdade tem torcidas de fazer inveja às sul-americanas, com fogos e sinalizadores, inclusive. Na Inglaterra e na Espanha, pesquisas mostram que existe a vontade popular de voltar a assistir às partidas em pé. No Brasil, lá vamos nós na contra-mão da história, fazendo exatamente o que os europeus já realizaram e estão mudando de ideia. Não se trata de complexo de vira-latas perante a Europa. É apenas nossa incapacidade de aprender com os outros.

– Bom, pelo retrospecto, então daqui a uns 30 anos voltaremos a ver os jogos em pé no Brasil, é isso?

Com alguma dose de sorte, quem sabe…

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‘Tá’ todo mundo louco! Uma corrida por milhões no Brasil

Por Emiliano Tolivia (@emilianotolivia)

Tá todo mundo louco: né?As dívidas dos clubes brasileiros, somadas, já ultrapassaram a casa dos R$ 3 bilhões. A cada atualização, susto, pânico. O último foi o Flamengo, que viu sua pendura chegar a R$ 750 milhões no prego do boteco, mais que o dobro do esperado. Outros já passaram por desesperos semelhantes recentemente. Por ocasião, me vem à cabeça o filme do excelente (sim, eu gosto) Mr. Bean: “Tá todo mundo louco! Uma Corrida por Milhõe$”

– Lembrei de outra comédia. Acabooooou o dinheiroooo… Lembra do Márcio Braga, lembra? – debocha um amigo, em visita ao Bar do Baiano, na Ladeira dos Tabajaras, onde fomos experimentar seu novo petisco.

Ao mesmo tempo, as receitas não param de crescer (do Baiano e dos clubes). O problema é que, na mesma proporção, disparam os salários dos jogadores, molas-mestras do sucesso – ou fracasso – de uma equipe. São os resultados que ditam o caminho para onde as instituições caminharão, se o da Paulaner ou o da Nova Schin.

Márcio Braga: "Acabou o dinheiro"Basicamente, é como o sujeito que tinha um apartamento no Rio de Janeiro, viu o preço triplicar no boom das Olimpíadas, acreditou estar rico, mas percebeu que, ainda que o vendesse, teria que gastar todo o montante para descolar outro teto para chamar de seu. Os valores salarias andam tão absurdos, colados na tal prosperidade brasileira, que, no fim das contas, ficam elas por elas.

A bola e a bolha

A questão é: vale a pena pagar salários que podem chegar a R$ 1 milhão para jogadores e técnicos e arriscar levar a saúde das instituições a patamares sem volta, a troco de viver a ilusão de ser uma grande liga mundial, quando na verdade há, se muito, um único encontro entre um clube daqui com um gigante europeu?

– Sem pergunta retórica, diga lá a sua verdade de uma vez…

Bar do Baiano: bela pedida na Ladeira dos Tabajaras

Não sei. Desta vez, é reflexão. O sonho de todos os clubes brasileiros é vencer a Libertadores e ser campeão mundial. Lindo, bonito, maravilhoso. Mas, com muita sorte e competência, apenas um terá esse privilégio. Isso se não cair ante um Mazembe da vida. Todos os outros grandes terão ficado pelo meio do caminho, com seus milionários atletas encostados entre um balcão e um DM.

A cada ano, mais medalhões voltam ao Brasil. Muitos pintam ainda com o ar de craque que ostentavam quando saíram do país – bem como o soldo –, mas talvez não tenham mais um clube top que os sustente por lá. Sempre há o discurso de “abri mão de dinheiro para voltar”. No entanto, quantos, na realidade, não estavam a caminho de um Getafe, para ganhar um troco, longe da família e dos amigos, e preferiram usar a nesga de prestígio que lhes resta para, aproveitando-se da memória afetiva do torcedor, firmar um último e vantajoso contrato da carreira por aqui?

Tudo que sobe… pode continuar subindo

Luis Fabiano: ainda vale o que custa?Embora muito pouco provável num futuro próximo, a Liga de Clubes seria um bom caminho. O teto salarial, com adaptações pontuais, é uma saída para que se pague bem a um ou dois craques, mas que jogadores medianos não surfem nas costas endividadas dos cofres das instituições. A NBA tem modelo parecido e nem por isso as principais franquias deixaram de dominar o cenário. Não há lá, portanto, um eventual nivelamento por baixo.

Luis Fabiano, Elano, Diego Tardelli, Fred, Zé Roberto… Jogadores que já tiveram mercado nos principais centros, mas que, pelos mais variados motivos, hoje provavelmente estariam em equipes medianas na Europa ou passando frio pela Ucrânia ou férias no Qatar. No Brasil, fazem a diferença – quando jogam – e ganham, no mínimo, o que conseguiriam em centros periféricos. Vale mais a pena viver à sombra de um sheik ou de um coqueiro de Ipanema? Pois é. Mas, vá lá, são exemplos de ainda excelentes jogadores. O que onera em demasia é pagar muito a “craques” como Diguinho, Ibson, Valdivia, Tinga…

Diguinho: custo alto e retorno mínimoO grande medo que se tem é o de “se eu não pagar bem, o cara vai sair”. Com um mínimo de controle no gasto salarial – união, clubes, união… -, para onde o Diguinho iria ganhando a fábula que recebe hoje? Um ou outro pode preferir tentar a sorte na Lapônia. Ok, está aqui sua chuteira, seu boné, muito obrigado, apareça qualquer dia para matar saudades do departamento médico, abraço. Mas, honestamente, é pouco provável que atletas consagrados, ricos, já com pouca paciência para treinar ou grandes saltos para dar, resolvem deixar o país novamente.

– Mas olha que cada vez mais vem jogador de nome atuar no Brasil, inclusive gringos.

D’Alessandro falou, D’Alessandro avisou…

Sim, é verdade. Seedorf, Forlán, Juninho Pernambucano, Deco. Exemplos não faltam. E é espetacular ver atletas como esses aqui. Mas, inegavelmente, são jogadores que já não estavam segurando o rojão num futebol de ponta. Emociona ver um desses dominar a bola, fazer um lançamento. Só que não se pode fechar os olhos para o fato de toda essa magia acontecer num misto de Canal 100, showbol e seleção de masters do Luciano do Valle. E é aí que cai o alvará do nosso boteco Brasileirão.

D'Alessandro falou e disse“Se eu fosse bem em todos os jogos, estaria na Europa, não aqui”, disse certa vez, irritado com vaias, o ótimo D’Alessandro, do Internacional, com aquela espantosa  sinceridade que normalmente só vem após o décimo chope.

Sou capaz de vislumbrar um futebol mais barato, com alguns jogadores de peso bem pagos, falsos craques com salários compatíveis e, principalmente, garotos. Clubes revelando, usando a base, fazendo uma renovação, inclusive necessária para a Seleção, muito maior do que a vista atualmente. Jogador que não se adaptar e fizer bico, talvez em pouco tempo de fato esteja vivendo de bicos. Só que nenhum clube poderia roer a corda. E é aí que a cerveja fica choca.

Com o dinheiro entrando cada vez mais, ao mesmo tempo em que as administrações continuam sendo amadoras, tudo o dito acima não deve passar de utopia. A cada resultado ruim, contratações açodadas em série para acalmar o torcedor e encobrir a própria incompetência.

Pois utopia maior são os sonhos dos clubes. Apenas um ganha o Mundial, só há um Neymar  disponível para ganhar fábulas. Vale a pena viver de aparências? Compensa vender Hoegaarden no botequim fuleiro da esquina a 15 reais e ver a clientela ir beber cachaça no cospe-grosso vizinho?

Os clubes argentinos, que pagam infinitamente menos, brigam pela Libertadores e fazem jogo duro no Mundial. Os brasileiros, mesmo sem tanta pompa, certamente têm bola para tanto. Exemplos não faltam. E se perder? Bom, perdeu. Um jogo. Doído, sofrido, traumático, mas um único jogo dentre 70 no ano. Duelo que um único time no continente disputa. Às vezes, se muito, uma única vez em sua história.

Compensa?

Futebol na praia: alegria do povoDesço a Ladeira, pego a Avenida a Atlântica e paro para assistir ao futebol na praia. Branco x Amarelo. Torço pelo amarelo, sem saber exatamente por que, e fico com a sensação de que o futebol poderia ser bem mais simples.

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Antigo conto sobre um botafoguense qualquer

Por Emiliano Tolivia (@emilianotolivia)

A Estrela SolitáriaQuem me segue no Twitter sabe que eu gosto de implicar com os rivais do Fluminense, na base da pilha saudável. A seca de títulos importantes pela qual atravessa o Botafogo acaba dando mais pauta para brincadeiras. Entre os cachaças, é o que se chama de “pescaria” – jogar a isca e esperar alguém morder, irritado com a piada. O barato é a ironia, não a agressividade – embora volta e meia algum desconhecido se chateie.

Já ouvi algumas vezes “absurdos” do tipo:

– Você não esquece o Mengão, hein?

– Você é botafoguense e não sabe!

Não chega a tanto, obviamente. Mas há características que eu gosto nos clubes co-irmãos. O mais legal do Botafogo, a meu ver, são os alvinegros, personagens que dariam crônicas e mais crônicas. Infinitas crônicas.

Digo isto para explicar o conto postado a seguir, escrito por mim já há alguns bons anos, ainda faculdade. O texto tem o futebol e a decisão de 1989 como pano de fundo, com o protagonismo de um apaixonado pela Estrela Solitária.

* Um agradecimento especial ao amigo Dudu Sarmento, provavelmente o botafoguense mais botafoguense que eu conheço, que mostrou este conto ao Paulinho Criciúma. Segundo meu querido árbitro de resenha, o texto foi aprovado.

*

Mistérios do Futebol

Dizem que não existe torcedor mais peculiar que o botafoguense. Em nome de suas A "arma" Paulinho Criciúmasuperstições, ele é capaz de qualquer coisa. Usar a mesma camisa durante um campeonato inteiro, não lavar a cueca, fazer trajeto semelhante e sentar-se sempre em um lugar específico no estádio. E que ninguém lhe diga que é besteira o que faz, a menos que queira um novo inimigo.  Eu não acreditava nisso. Na minha concepção, independentemente do time, cada qual tinha suas mandingas, cada louco com sua mania. E assim foi, até que conheci o Athaíde. Era um torcedor ímpar. Tinha suas manias típicas de alvinegro, porém sua capacidade de chatear os outros com tal assunto era tamanha que, a um desavisado, passaria tranquilamente por flamenguista.

Pois bem, corria o ano de 1989, e Athaíde via seu ultimo pôster do Botafogo campeão, em 1968, amarelar na parede. Isso havia sido quando ele ainda tinha trinta anos. As gozações por estar há vinte e um anos sem motivos para comemorar nem mesmo Revéillon já estavam tirando seu bom humor. Desta vez, porém, o time vinha fazendo um grande campeonato estadual e havia se classificado para disputar a final, a ser jogada justamente contra o rubro-negro, objeto maior de seu ódio. “Se o Flamengo jogar contra o time do canil, pode ter certeza de que na mesma hora eu coloco uma coleira e vou latir nas arquibancadas”, disse certa vez, no auge de uma acalorada discussão.

Athaíde realmente fazia qualquer coisa para ver o Glorioso campeão. Não ia, por exemplo, a decisões, por se considerar um pé-frio. Tampouco a jogos contra o Flamengo, pois na primeira e última vez em que presenciou tal clássico, em 1981, viu a humilhante e histórica derrota por 6 a 0. Portanto, mais uma vez, ficaria em casa.

A dúvida que lhe acometia no momento era descobrir alguma relação entre fatos que pudessem levar seu time, azarão na disputa, ao título. Realmente estava difícil salvar algo de positivo nessas duas décadas de penúria. Foi quando seu telefone tocou. Do outro lado da linha, seu irmão, Amarildo, lhe trazia más notícias. Sua tia Jurema padecia de uma grave doença e lhe restavam apenas algumas semanas de vida.

Desligou e se pôs a pensar sobre sua família, que aos poucos se ia. Não tinha mulher ou filhos. Restavam-lhe o irmão e um primo distante. Cedo, em 57, perdeu o pai. Em 61, foi-se a mãe e, um ano após, seu avô materno. Os anos de 67 e 68 foram duros para ele também, quando viu falecer sua última avó e a irmã mais nova. Pelo menos depois foram anos calmos. O que havia restado dos Junqueira de Brito seguia a vida com a saúde firme e forte. Sem dúvida, vinte e um anos de paz. “Vinte e um anos…”, suspirou Athaíde. “Ei!”, gritou desta vez. “Mas que diabos! Duas décadas que não morre ninguém e que o Botafogo não é campeão!”.

O "carro" GarrinchaLevantou-se num misto de transtorno e êxtase. Havia finalmente encontrado uma ligação. A cada ano em que morria algum parente seu era batata, título na certa. Já não lhe restavam muitos. Lembrou então da pobre tia Jurema. Mais do que de pronto ligou para Amarildo:

– Quanto tempo ainda resta de vida à nossa tia, meu irmão?

– Um mês, no máximo – respondeu, sem dar maior importância à repentina ligação.

Desligou imediatamente o telefone. “Ai, meu Deus… o jogo é na quarta-feira. Faltam menos de quatro dias. Por que essa velha não morre de uma vez?” questionava-se, rogando todas as pragas possíveis e imagináveis à coitada. Andando sem parar de um lado para o outro da sala, começou a ter dezenas de idéias por minuto. De alguma forma, não importa qual, a danada teria que bater as botas antes de quarta. E se fosse antes do jogo, melhor. Não seria bom dar sopa para o azar.

Foi então que decidiu: “Ou ela morre ou eu mato a desgraçada!”. Pegou o “Garrincha” – assim chamava seu carro, uma Brasília com as rodas meio tortas – e foi ao encontro da tia. Ao abrir a porta, Jurema foi surpreendida com um buquê de flores que Athaíde havia comprado no caminho. Junto com o presente, o convite:

– Tia, minha querida tia. Faço questão de que você assista à final do campeonato comigo lá em casa, na quarta, às oito da noite. E não aceito “não” como resposta.

– Mas é claro, meu sobrinho preferido. Um pedido seu é uma ordem para mim.

Marcado o encontro, faltava agora planejar a desfecho. Falou com um conhecido um tanto quanto esquisitão e comprou um “trêsoitão”, o qual prontamente apelidou de “Paulinho Criciúma”, o matador do Botafogo. Decidiu esperar até o segundo tempo. Se o título estivesse garantido pouparia a pouca vida que ainda restava à tia. Caso contrário, realizaria seu dever clubístico. Nada de deixar a decisão para a terceira e derradeira partida. Seria arriscar demais uma conquista tão esperada.

Chega o dia da grande final. Chega também a pobre tia Jurema ao pequeno conjugado em… Botafogo – obviamente. Athaíde a espera vestido a rigor: camisa autografada por Nilton Santos, primeira bandeira que ele comprou no Maracanã, almofadinha com o escudo da estrela solitária e a cueca preta com costura de linha branca, usada somente em ocasiões especiais. Era o próprio alvinegro supersticioso, um dos tantos que cumpriam o mesmo ritual a cada jogo. Fixou um pedaço de Bom-Bril na antena da televisão para melhorar a imagem, tirou a cerveja da geladeira e sentou-se confortavelmente no lugar de sempre do sofá.

A partida tem inicio e a tensão começa a tomar conta de Athaíde, que, gordinho, sO velho Biriba, com Carlito Rochauava mais do que o habitual. Jurema nada notou, afinal de contas “ele sempre foi meio maluco com essa história de futebol mesmo”. O Botafogo pressionava o adversário, mas, gol mesmo, nada. Veio o intervalo e o placar continuava registrando um fatídico zero a zero. Rapidamente, Athaíde se dirige ao quarto, de onde tira o “Paulinho Criciúma” do fundo do armário. Volta para a sala, mas antes tem a preocupação de trancar Biriba, seu cachorro, afinal ele poderia se assustar com o barulho. Ao ser perguntado sobre o cão por sua tia, respondeu “que ele é muito pé-frio, deixa trancado no quarto mesmo”.

O segundo tempo começa como terminara o primeiro, muita emoção e nada de gol. Athaíde rezava sem parar por “um gol, pelo amor de Deus, apenas um golzinho”. Mas nada que aparentemente sensibilizasse os deuses do futebol. “Garrincha, você que está aí em cima, pede pra Ele um gol. Pode ser contra, não tem problema não”, continuava sussurrando. Aos dez minutos, finalmente, resolveu que era hora de agir. “É pelo bem do Fogão”, se confortava, querendo encontrar uma justificativa para o crime. Virou-se para a tia, sacou sua arma e, com a voz embargada, lhe disse:

–         Me perdoa, tia…

Gol de Maurício: a consagraçãoOnze minutos e nada de um gol salvador do Alvinegro. Estavam na sala ele, sua tia e o “Paulinho Criciúma”. Foi quando tomou a decisão mais importante de sua vida. Aos doze minutos, ao mesmo tempo em que a bola era alçada na área do Flamengo, o mais fanático torcedor de futebol que eu já conheci apertava o gatilho. No Maracanã, Maurício, com um leve mas suficiente empurrãozinho em Leonardo, fazia o gol que ele tanto havia pedido. O estampido e um grito de horror se misturam ao som das comemorações. Minutos depois a polícia chega ao apartamento. Arromba a porta e encontra Jurema aos prantos com seu sobrinho morto e ensanguentado em seu colo, ainda com a arma em punho e uma estranha expressão no rosto que parecia ser um… sorriso. Não tivera coragem de atirar em sua tia. A regra se confirmava. Botafogo campeão novamente após vinte e um anos. Haveria o juiz validado o gol caso Athaíde não houvesse disparado? Quem se arrisca a dizer…

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Fluminense, de novo, Fluminense

Por Emiliano Tolivia (@emilianotolivia)

Ficou fácil torcer pelo Flu. Melhor dizendo, voltou a ser fácil torcer pelo Flu. Para quem chegou a mais tempo, a alegria é indisfarçável. Aos mais novos, a frase não chega a ser 100% compreensível. Mas para quem roeu o osso de chifre de rinoceronte dos anos 90, a sensação é de extremo alívio: o Fluminense Football Club está de volta em sua essência.

O título brasileiro de 2012 , conquistado de forma incontest…

Bar Brasil: melhor chope do Rio– Não vamos contratar ninguém? Nunca vi o Fluminense tão parado! Ó, com essa zaga aí não vamos arrumar nada, o Bruno é fraco, o Carlinhos é morto, o Edinho é um caminhão-cegonha fazendo uma curva fechada na serra, o Thiago Neves não joga mais nada, o Deco cansou. Se não vier ninguém, já era Libertadores, vamos perder até para o Galo. Com o Abel então, hum… – interrompe-me e metralha um reconhecido azedume à mesa do Bar Brasil, o melhor chope do Rio de Janeiro.

O torcedor é um eterno inconformado. O tricolor tem, por hábito, ser um corneteiro feroz – muitas vezes com razão, diga-se. Mas é hora de aproveitar e galhofar um pouco. Assim como o Abel, todo torcedor do Flu bem-humorado faz questão de contar os títulos de 2012: Carioca, Brasileirão e, claro, o Penidão. A tríplice coroa. Com um sorriso escondido pela espuma da cerveja, isso é capaz de irritar qualquer rival – à exceção, é claro, do corintiano, que não chega a ser um adversário direto nos balcões da vida carioca.

Voltemos ao chiclete de onça mascado na década perdida. Para chegar a Fred e Cavalieri, à alegria de um título peso-pesado com 89 rodadas de antecedência, foi preciso passar por Barata, Pessali, Julio Cesar, Sergio Alves, Bruno Carvalho, Zé Cláudio, Joel Cavalo, Álvaro Barcellos e muitos outros que por pouco não fecharam Álvaro Chaves. A quase “Desocupação 41”.

Um pulinho no passado

É duro, mas necessário, lembrar do que foi feito no clube que hoje novamente orgulha o Brasil retumbante de glórias e vitórias mil. Feliz é a nova geração,  que tem como tristeza máxima no futebol a derrota na final da Libertadores. Pois isto não faz cócegas ao maldito ano de 1996. Não há Fluminense x LDU que chegue perto do fatídico Fluminense x Vitória. Não foi fácil ser tricolor quando moleque. O gol de barriga é um espasmo – gostoso, mas efêmero. Três rebaixamentos, dois consumados, champanhe, nove anos de fila…

Ao mesmo tempo, o Vasco crescia e, como o próprio Eurico dizia, usava o Fluminense como Na Série C: o fundo do poçoescada para bipolarizar o Rio com o Flamengo. Vestir a camisa do Flu Brasil afora era uma prova de amor – e um teste de paciência. As piadinhas de Terceira Divisão persistem até hoje, mas foi preciso voltar a ser um papão de títulos para realmente não ligar e até debochar delas.

– Lembro de quanto dinheiro perdi em Loteria Esportiva. Sempre apostava no Flu e no empate e sempre dava o outro. Já fiquei por um jogo… – recorda o azedo, agora um tanto quanto amargo.

Não cheguei a ter amigos virando a casaca (provavelmente seriam ex-amigos), mas li muito a respeito nos jornais da época. A expansão da internet e o fortalecimento da TV vieram no pior momento possível para o Tricolor. De repente, era possível ver várias vezes os vexames do Flu – e as glórias dos rivais. Não era mais necessário aguardar o Globo Esporte, a Mesa Redonda do domingo à noite, o jornal do dia seguinte. Começou a ficar tudo ali, à disposição. E isso não foi legal. Não para o Fluminense, não para o seu torcedor.

Casal 20: inequecívelEu tinha uma fita VHS com jogos do time do tricampeonato. Era um doce refúgio. Maracanã lotado, bandeiras, pó-de-arroz. Paulo Victor, Ricardo Gomes, Branco, Delei, Tato, Romerito, Washington, Assis e gol no Flamengo! Gol no Vasco! Gol no Flamengo! Gol no Bangu! Assisti tanto àqueles jogos que, honestamente, já não sei o que eu lembro de fato e o que é fruto da fantasia infantil/adolescente de ter presenciado a magia do Casal 20. O mais provável é que eu tenha visto tudo aquilo – mas não ao vivo.

O Fluminense fora das quatro linhas se rearruma, mas ainda está longe da calmaria. Há forte dependência da Unimed, que faz o tricolor viver uma espécie de Disney. Mas isso é outro papo. A questão aqui é o torcedor. O orgulho que voltou a vestir grená, branco e verde. O que dizer dos últimos anos do Flu?

De repente, Fluzão outra vez

De repente, tetracampeão brasileiro. Desde pequeno o tricolor conhece a história de 70. Ao contrário do que dizem rivais, o pó-de-arroz não descobriu o Robertão de uma hora para outra. Isto aconteceu com eles. Mas, pelas dúvidas, vieram dois Brasileirões e o Flu igualou o Vasco ao ser tetracampeão. Em 2000, isso era impensável.

Bonita festa: marca da torcida do FluDe repente, Libertadores atrás de Libertadores. Quando eu era moleque, Libertadores era mais distante que a Champions. Era algo como a Copa do Sheik das Nações Árabes de Países Começados com Q. Era coisa para São Paulo e Palmeiras. Havia alguns rubro-negros no colégio que falavam a respeito, mas também não sabiam explicar ao certo aquilo, era necessário consultar os pais (“acho que ganhou do Boca, vou ver”). Hoje, o Flu entra como um dos favoritos em todas as edições, já bateu na trave e, o mais importante, transformou o troféu em obsessão. Nos 90, ganhar uma Taça Guanabara para, talvez, ser campeão carioca era o máximo que se podia almejar. Cada vaga que quase vinha aumentava o gosto de que aquilo, talvez, não fosse para o nosso bico.

De repente, as pessoas temem, respeitam, conhecem o Fluminense novamente. Fora do país, jornais exaltam. Torcedores têm a camisa reconhecida pelas ruas de Buenos Aires, Paris, Munique, Berlim. O Flu volta a causar raiva, rivalidade, antipatia. Saia correndo de rival que simpatiza com seu time. Clube simpático é uma desgraça.

A arte de sobreviver à base de pilha

– Pague a Série B! – debocha um rubro-negro recém-chegado.

– Pague o Deivid, o Ronaldinho e a conta de telefone! – devolve meu amigo tricolor.

O torcedor é um chato por natureza, mas o tricolor que viveu a década perdida adquiriu superpoderes da chatice. É difícil ser simpatizante do Flu. A menos que o sujeito tenha parado de beber ou frequentar bares, foi preciso ler, aprender, conhecer a história – glórias próprias e podres dos rivais – além de tirar um pós-doutorado em pilha.

Esse ex-sofredor precisou, por anos a fio, aprender a rebater verdades e mentiras jocosas, e sempre em minoria. Era isso ou sair no tapa. Serviu para dar cancha. Haja argumento para provar que o Fluminense ainda era maior que Flamengo, Vasco e Botafogo. Além de Barcelona e Real Madrid. Juntos.

Tetra: a cereja do boloAs vacas magras ficaram para trás, bem como os jogos com 1200 pagantes contra o Bangu. A torcida do Flu voltou. Maior, mais bonita, mais criativa. Esqueçam o Engenhão, aquilo é uma briga perdida. A torcida do Fluminense é a do Maracanã, a de público mínimo de 15 mil, a das festas mais bonitas, a líder de média na Libertadores 2008 e no Brasileirão 2010, a das músicas bonitas, a que carregou o time em 2009 e, por que não?, em 99. A volta do Maracanã (desfigurado, mas ainda Maracanã) é uma bênção maior que a de João de Deus.

O velho VHS do tri segue lá, guardado, na gaveta e no coração. É o time preferido da maioria dos tricolores. Mas hoje me delicio abrindo o DVD de 2010, de Conca e Muricy, e tendo a certeza: eu estava lá!

Dois mil e doze foi o ano da reafirmação do orgulho tricolor. Da volta do sorriso dos coroas. Da fanfarra da garotada, que só vê alegrias. Mas, mais do que tudo, do alívio da minha geração de, enfim, entender do que falavam nossos pais: a eterna grandeza do Fluminense Football Club.

*Promessa de ano novo: atualizar mais o blog. E já é 2013, vamos beber a ele!

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Não nos querem fora do nosso estado

Por Emiliano Tolivia (@emilianotolivia)

Galeto Sat´s: onde tudo termina e recomeçaEntre a centésima e a milésima caldereta no Galeto Sat´s, bar no qual 118% dos meus amigos dos mais variados círculos terminam as noites mais animadas, dona patroinha manda:

– Lindo (ela acha, ok?), vamos para Belo Horizonte ver o Flu?

Dou aquela golada de caçapa, olho ao longe já em busca do Liesley – se chamar de Jon Secada, ele atende – e, com o dedo erguido, busco a milésima primeira. É o tempo de pensar com a razão “Tá doida, linda (ela sim, de fato, é), perrengue monstruoso, é longe, enfrentar despreparo de PM, briga de torcida, vamos ver no clube e…”

– Vamos, fechou!

É, eu sou um fraco. Tanto em relação às vontades da Bruna quanto aos meus instintos de tricolor, não tem jeito. Quando os desejos coincidem, lá vamos nós encarar a entrada rumo a BH. E é aí que começa a via-crucis do torcedor que deseja assistir ao seu clube de coração fora de sua cidade.

A verdade é que não nos querem lá. O clube adversário, a torcida rival, a polícia do outro estado, o poder público em si: ninguém realmente gosta de ver sua cara cheia de Brahma por aquelas bandas. Não só não te abrirão os braços como fecharão os punhos e, se possível, terão auxílio de um cassetete. No pior lugar do estádio, com o preço mais caro. E pagou porque quis, quebrou o nariz – ou, ao menos, tentarão.

Clima de guerra criadnSe a vida do mandante muitas vezes já é complicada, imagine a do visitante. Futebol fora de casa, hoje, é guerra. Que as Organizadas se odeiem é previsível. Absurdo é ver dirigentes e até jornalistas e jabalistas irresponsáveis insuflando torcedores e criando um clima de animosidade que sempre vai descambar para a agressão. Pois esse foi o cenário que encontrei no Independência para Atlético-MG x Fluminense. Assim como já vivi outras experiências semelhantes e tenho certeza que acontece quase sempre o mesmo em todos os jogos da rodada, ano após ano.

Viajar: não era para ser tão difícil

Começando pela abrideira: temos um grupo numeroso que vai às partidas, todos amigos. Fechamos um ônibus que, com conhecidos, virou dois em pouco tempo. Os organizadores tomaram todos os cuidados possíveis e entraram em contato com a Polícia Militar de Minas Gerais a fim de que tudo transcorresse em paz. Atendimento exemplar, promessa de tranquilidade e viagem selada.

Tudo corria perfeitamente bem, resenha cerveja e batucada rumo a BH, até a chegada ao posto policial na entrada da cidade. Ali, já se encontravam parados os ônibus das Organizadas. Avisaram que revistariam os passageiros e o ônibus, o que considero um procedimento perfeito. Nunca se sabe, é melhor mesmo prevenir.

Bom, ali nos seguraram por longas duas horas enquanto resolviam de quem eram as maconhas encontradas nos outros ônibus. Nestes momentos é aquilo de sempre, um tal de doutor, não sou agricultor, desconheço a semente, isso nasceu aí e tal.

Sua vida? Aham...Meia hora antes do pontapé inicial, enfim partiu a procissão de uns dez ônibus. Honestamente, eu queria entender a lógica. Tenho amigos e conhecidos em Organizadas, sei que uma parte não é arruaceira, mas também é notório que são elas que arrumam brigas com as facções rivais. São elas que se armam, que se matam. E quem vai nestas caravanas está consciente do que pode acontecer. Assim como, quem não vai, é porque opta por segurança, ainda que pagando mais caro. Paz e conforto.

Ora, sendo assim, que sentido há em aglomerar tudo em uma escolta só? Se é ruim generalizar que todo organizado é marginal, muito pior é tratar todo torcedor como organizado. Não são. Não somos. Com que direito a PM segura um ônibus sem motivo por duas horas e ainda o transforma em alvo, ao colocá-lo ao lado de outros, digamos, menos amistosos?

Pode piorar, claro. O comboio partiu a meio quilômetro por hora. Já percebi em muitas oportunidades que a PM segura as Organizadas até o ínicio da partida para, só então, deixá-las entrar, com a bola rolando. E nós com isso? Nada. Mas, desta vez, tudo. Entramos no Independência aos 44 minutos, a tempo de vermos duas bolas explodirem na trave de Diego Cavalieri.

Independência: péssimo para ver jogoParênteses: o andar de cima do Independência é horrível. Simplesmente não é possível ver o campo inteiro. Se o torcedor senta, há uma grade alta e grossa na frente. Em pé, ele precisa escalá-la para enxergar o outro lado. Na parte inferior deve ser ótimo assistir à partida, mas na superior é péssimo. Não deu para entender, já que é um estádio novinho em folha.

Termina o jogo, vitória do Galo, vida que segue. Ou não. Em qualquer lugar que se leve o futebol a sério, primeiro se permite a saída de 1800 pessoas, que já são encaminhadas aos seus ônibus na entrada do estádio, e depois, os outros 18 mil. Mas não é o caso do Brasil, evidentemente – não apenas em Minas Gerais. Os tricolores ficaram retidos cerca de uma hora e meia no estádio, mesmo com este já completamente vazio.

– É que os atleticanos estão nos bares bebendo – disse um PM.

A vontade era responder “Ah, não brinca?! Depois de um jogo desses?!?!”, mas foi melhor segurar a bronca. Saída liberada, vem a recomendação, em tom de ordem à la Zé Pequeno.

– Tira a camisa.

– E o que faço com ela? – questiono, já que a Bruna também vestia o uniforme do Flu.

– Sei lá, esconde, joga fora, faz o que você quiser.

Jogar fora a Bruna? E para arrumar outra? Pausa de três segundos para entender e…

ELA!!! – insisto, agora apontando para Bruna, após perceber que ele não havia captado.

– Faz o que você quiser, vai lá então…

Segue o jogo

E foi o que fiz. Segui, fiz um sinal de positivo por cima do ombro, de costas, e me arrependi já esperando pela paulada – que felizmente não veio. Mais tarde, fiquei sabendo que um grande amigo, com quem estava minutos antes, fora agredido apenas por perguntar se era essa a recomendação de quem deveria prover segurança. O relato dele está no excelente blog Flupress, do camarada Gustavo Albuquerque. Leia aqui.

Descemos uma pirambeira sem fim em busca dos nossos ônibus, que certamente estariam já posicionados para sairmos rapidamente daquela arapuca. É, mas não estavam. Ficamos mais uma hora presos entre duas ruas à espera do transporte. Neste ínterim, correria de um lado, do outro, tensão, PM armada até com um caveirão.

Enfim, os ônibus. Casa? Calma que chope quente não acaba rápido. O comboio parte a passos de cágado, desfilando por meia cidade, passando em frente a diversos bares lotados, com atleticanos extasiados e exaltados. Levar uma pedrada era questão de tempo, já que íamos em nova procissão, como um alvo pintado em verde, branco e grená.

Não deu outra: de repente, algo entre um paralelepípedo e um meteorito estoura um dos vidros. Mesmo com o improviso de cortinas e bandeiras para fechar a cratera, houve cacos, vento, chuva e barulho dentro do automóvel até o Rio de Janeiro.

Conclusão: saímos do Rio às 7h e voltamos às 4h para assistir a 50 minutos de bola rolando. Futebol não é teatro, mas não há qualquer respeito com o consumidor. Se em casa já sofremos, fora somos odiados por todos os lados. E quem hoje trata mal, amanhã é maltratado.

Kalil: cartolão à moda antigaÀ vergonhosa PM Mineira, nada acontecerá. Ao Alexandre Kalil, presidente do Galo, cartolão à moda antiga que acredita que não mandar ingressos antecipadamente ganha jogo, também não. Mesmo que essa atitude crie confusão na bilheteria do estádio. A PM é conivente, logo, quem irá reclamar? É exatamente como a lógica das milícias no Tropa de Elite 2.

Depois, não entendem por que os jogos ficam vazios, por que a paixão do torcedor vai arrefecendo e muitos jovens preferem outros lazeres.

Lar, doce lar

Chegamos em casa sãos e salvos. O abraço no buldogue Chico foi especialmente apertado. Meu compadre Patrick me disse certa vez que, depois que se tem um filho, esses medos aumentam – e eu, que já acreditava nele, começo a entender. Fui dormir com a certeza de que não iria mais aos jogos que restam fora do Rio. No fim, estava mais chateado com a viagem do que com a derrota.

Morumbi: lá vamos nósMas futebol é uma desgraça, para bem e para mal. Acordei pensando em alternativas para ir a São Paulo. De carro, de avião, de helicóptero, de bicicleta… de alguma forma que não precise contar com o inexistente bom senso da PM e que possa ser apenas um cidadão de bem indo a um espetáculo..

– Já? Nem descansei ainda desta viagem… – Bruna ameaça resmungar.

Sim. Eles ainda não venceram. Resta saber até quando.

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Violência no futebol: muitos pitacos e pouco conhecimento

Por Emiliano Tolivia (@emilianotolivia)

– Imagine na Copa!

No boteco, no trabalho, na internet, a frase já virou chavão. Mas a piada ganha tom sério  para as autoridades do Brasil em geral – e do Rio especificamente, que ainda receberá as Olimpíadas. A recente divulgação de violência de torcidas organizadas ligou a sirene vermelha. Sim, divulgação, e não onda, porque isto ocorre quarta e domingo, e os envolvidos sabem. Mas, no momento em que agressões e mortes vão parar na mídia, a dona Maricota e o seu Hepaminondas ficam sabendo, a sociedade – com razão – se escandaliza, e o poder público se vê obrigado a dar uma resposta ao que ele, preguiçosamente, joga para debaixo do tapete a cada clássico.

Percebam, a preocupação não é com a segurança dos torcedores habituais. Isto é consequência. O medo é sobre o que sairá publicado no NY Times, o que será veiculado na BBC. Na Copa, o público é outro, os arruaceiros são os estrangeiros, a torcida da Seleção é a mesma que vai aos jogos de vôlei às 10h. Logo, a preparação é totalmente diferente, o foco são hooligans, poloneses, turcos, russos, croatas. Mas, voltando ao cerne da questão, é preciso dar uma resposta.

Se as medidas tomadas de fato trouxessem tranquilidade às pessoas de bem que vão aos jogos, ainda que acabasse sendo um efeito colateral de providências hipócritas, seria ótimo. O problema é que, quem está à frente da cruzada, pouco ou nada sabem, mais preocupados que estão em dar exemplos, respostas ou, simplesmente, fazer política. Falta arquibancada, falta conhecimento de causa, sobra óleo de peroba.

– Mas até em Brasília o pessoal está correndo atrás – questiona um amigo, quase abraçado ao delicioso joelho de porco grelhado da Adega do Pimenta, em Santa Teresa.

Pois é, e esse é o problema. Começa de cima. Há alguns anos, do Distrito Federal, veio a ordem de proibir as cervejas no estádios como grande solução para a violência. Tirando rixas de organizadas de mesma torcida, acredito que não haja brigas do lado de dentro há uns 15 anos. Qualquer pessoa que vá aos jogos sabe que as confusões se dão do lado de fora. E cada vez mais distante das arenas esportivas, em encontros marcados ou fortuitos, já que bondes se espalham pela cidade em busca de rivais. É a violência pela violência, é ela o verdadeiro ópio do marginal. Escrevi a respeito no post inaugural do blog (Tem “caraculpa” eu? Não, cervejeiro, não tem…)

A “culpa” da dona Candinha e do seu Hepaminondas

Só que é bonito discursar pelo fim das brigas no futebol, dá voto, dona Candinha e seu Hepaminondas aplaudem. Pena que não tenha qualquer efeito prático além de perpetuar a falácia no tema – e prejudicar o torcedor de bem. Além do álcool, acreditam os nobres deputados que é possível fazer um cadastro dos membros das torcidas organizadas. Dá para ser mais inocente? Porque quero acreditar que seja apenas ignorância. Quem, em sã consciência, acredita que os “linhas de frente”, os barras-pesadas dos bondes vão assinar qualquer coisa? Dar seu endereço, CPF e telefone?

É como a genial medida de proibir as organizadas, mas não controlar seus componentes. Apenas torna muito mais difícil o trabalho de identificação deles, agora sem faixas, camisas e bandeiras. De modo geral, passam a ser todos iguais.

A polícia tem um setor de captura de foragidos, mas os crimes cometidos no futebol são os de mais fácil resolução que pode haver. Os criminosos estão de volta a cada clássico. E aumentando a ficha corrida. Sequer é preciso ir em busca deles. Mas, em vez de detê-los, a polícia, como não tem qualquer controle individual sobre os membros e enxerga apenas o todo, como um gado ,escolta o bonde para dentro do estádio, onde ficarão ao lado dos pacíficos torcedores que pagam seu suado ingresso.

Basta ir às partidas para saber como se dá o “espetáculo” da chegada dos bondes. Com grande aparato policial em volta, cantam músicas de apologia à violência, relatando vários delitos cometidos (proíbem shows do Planet Hemp por muito menos, quando interessa aparecer). São réus confessos! No bando, raros são os que usam camisas da organizada. Os motivos: estarem à paisana para tocaias, não serem identificados caso estejam em minoria ou não queimarem o filme da facção. Normalmente, estes camaradas já aprontaram desde cedo em locais distantes da cidade.

Do bonde, muitos sequer entram no estádio. Vários ficam do lado de fora, já à espera dos inimigos – é uma guerra. Boa parte sequer torce pelo clube ao qual a organizada representa, mas se junta a determinado grupo porque na pista (briga), nos bailes funk ou no bairro são mais fortes, numerosos e temidos. Futebol é mero pretexto. São gangues. Tudo passa pelo poder e, no caso dos mais jovens, por uma patética afirmação dentro de um contexto sem educação e referências minimamente decentes.

– E a polícia não sabe de tudo isso? – emenda meu curioso amigo, que deve ter ido ao Maracanã duas vezes na vida, para ver o Papai Noel.

Sabe sim. E é conivente. Exatamente por isso não cola o discurso atual, após uma semana de morte e brigas, como se fossem noviças jogadas em uma casa de massagem. Os policiais sabem exatamente como funciona o submundo das torcidas organizadas. O exemplo veio da Inglaterra e funciona. Prende-se o arruaceiro, que deverá comparecer a uma delegacia no dia dos jogos e, de lá, só poderá sair à noite. Durante anos. Mas quem quer ser babá de marmanjo num pátio de delegacia num domingão à tarde? Interessa criar sistemas nas catracas para identificação de vândalos? Se não temos competência para criar tais mecanismos, não podemos jamais receber Copa do Mundo e Olimpíada. Só que temos. Apenas não queremos.

Violência gera violência. Gentileza? Difícil…

A PM, em 90% das ocorrências, se mostra totalmente despreparada para o que está fazendo. Inclusive o GEPE (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios). Quantas vezes não foi a polícia que começou tumultos em filas ao jogar, como espuma de carnaval, por mínima razão, o spray de pimenta, causando correria? E isto é o café pequeno. Quem entra em confronto de facções e é detido, até outro dia, sabia que levaria uns cascudos, seguiria para a delegacia mais próxima e depois seria liberado, tendo apenas o compromisso de voltar em juízo para pagar uma cesta básica. Interessava mais dar um corretivo à base de cassetete do que punir.

Ninguém me contou. Eu vi um ex-comandante do GEPE, em seu triciclo motorizado, com um porrete que trazia o nome de uma organizada, quebrar o isopor de uma senhora, de aparentes 60 anos, que vendia cerveja na porta do Engenhão. É proibido, ok, mas vejam o destempero e a desproporção entre os atos de uma pessoa que, teoricamente, deveria saber lidar com público – e não com gado.

Neste mesmo clássico, a PM segurou uma organizada em sua sede e simplesmente liberou a invasão da facção rival à outra entrada. Liberou, pois, de repente, mesmo com uns 600 homens fazendo policiamento, um bonde atravessa metade do Engenhão com paus e pedras e chega sem ser importunado, atacando indiferentemente os torcedores comuns presentes. Coincidentemente, o GEPE tentava impedir clássicos no Engenhão por não considerá-lo seguro o suficiente (o ex-Maracanã ainda estava aberto).

Casos não faltam – e não só no Rio. Certa vez, em São Paulo, vi tricolores sendo agredidos covardemente pela polícia sem qualquer motivo na entrada ao Morumbi. Diziam frases do tipo: “Está pensando que aqui é Rio?”. Houve o jogo da volta, e a PM do Rio, que, verdade seja dita, é eficiente na proteção das torcidas visitantes, deu o mesmo “tratamento” aos são-paulinos. Não foram poucos os paulistas que relataram ter passado o mesmo que os cariocas.

Outra dúvida que fica no ar, embora a resposta não pareça tão complicada: não é estranho que as torcidas organizadas, mesmo quando em maior número, nunca entrem em confronto com a PM, ao contrário de outros países? Sabidamente, o Brasil é o país do conchavo, do jeitinho, de uma mão lavar a outra…

– Ah, mas a festa é bonita, nem todo mundo é bandido, cara…

De pleno acordo. Mas eu nunca vou entender o que leva um torcedor de bem a se filiar a uma instituição que prega a violência. No intuito de sobreviver, as organizadas tentam mostrar que são positivas, que fazem serviços sociais, que ajudam. Mera fachada. Algumas até fazem, ao mesmo tempo em que incentivam bondes da madrugada, pista e afins, com camisas, bandeiras e músicas que nada têm a ver com o clube.

Respeito sociólogo que diz que na organizada há 7% de marginais infiltradas, mas, se não é o inverso, é quase isso. Na base do empirismo, apenas indo aos estádios, percebe-se isso. Os que querem apenas torcer, no mínimo, fazem vista grossa. Isto quando não acham bacana dizer que bateu em não sei quem, pegou sei lá quem. Há conivência em ir a festinha e cantar que deu beijo no meio da torcida X, que é Uh, CV, torcida Y aí, e afins.

A própria imprensa, da qual faço parte, na maioria das vezes faz rasos diagnósticos dentro de uma sala com ar condicionado, comendo rosquinhas. É muito fácil chegar cedo no carro da reportagem e sair tarde, com tudo vazio. Aí é um tal de “clima de paz no Engenhão”, “torcida vai chegando sem maiores problemas”, enquanto, na verdade, o pau canta do lado de fora, nos trens e estacionamentos. Isto quando não se entra no discurso fácil de que os públicos dos clássicos cariocas têm sido uma vergonha. Claramente, além de outros fatores, tem muito peso a violência das facções.

A dor do soco, a força da hipocrisia

Ao mesmo tempo que sou crítico das organizadas, não posso fechar o olho para a tendência do poder público de querer dar exemplo – e acabar sendo injusto. Os 22 integrantes da Young Flu presos por agredirem vascaínos no trem foram muito bem detidos. E melhor ainda fizeram em não liberá-los logo depois, como sói acontecer. O problema é que começam os exageros. Bangu 2, fotos divulgadas… Não bastaria cumprir a lei, que já é, teoricamente, justa e rígida? Existe código para quadrilha, agressão, assassinato… cada qual no seu cada qual. Mas transformam a coisa em um show. Não sei, mas tenho certeza que é ilegal pegar um sujeito, ainda que réu confesso, e apresentá-lo à imprensa tal qual um reforço do Real Madrid, com direito a policial levantando-lhe o queixo.

O problema da ânsia popular do “tem que prender mesmo!” são as injustiças. Eu mesmo tenho um amigo, cara de bem, pai de família, que passou a noite preso sem ter feito nada além de xingar – junto com centenas de pessoas – um torcedor rival. Sem encostá-lo, sem nada, apenas gritos de longe, em coro. Foi pego como exemplo, por teórica incitação à violência. Um policial de folga disse que viu o que não viu, um juiz, sem paciência por estar de plantão no Jecrim justificando seu alto salário, não lhe deu direito à defesa e pronto, 24h de cana. Tirar a liberdade de uma pessoa é caso sério e deve acontecer – mas quando realmente houver motivo para isso. Quando entra-se no caminho do exemplo, mostra-se mais preocupação com o recado aos marginais e a opinião da dona Candinha e do seu Hepaminondas – e esquece-se que, talvez, haja um injustiçado.

– E os clubes ainda pagam por isso… – finaliza meu amigo, já com uma bela torta alemã.

Pagam. E muitas vezes incentivam. Quando um presidente diz que os torcedores devem fiscalizar os jogadores nas noitadas, é porque a violência das organizadas não lhe é uma preocupação. Sem dizer que os clubes sustentam as facções ao dar ingressos, que são revendidos na porta dos estádios pela metade do preço. Mesmo torcidas que visualmente não contam com cinco torcedores recebem trinta, quarenta, cinquenta ingressos.

Mas está na mão dos clubes o que de positivo pode sair desta história toda. Com a polícia, o Ministério Público e a opinião da sociedade a favor, é possível, enfim, cortar a farra dos bilhetes grátis. Sem este apoio, entendo que não seja fácil acabar com o ganha-pão de muita gente que, nem sempre, aceita apenas o diálogo.

Agora, apesar dos muito pesares, mesmo com muita gente que não entende do riscado dando pitaco, dá para fazer. E aí?

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