Bar: lugar de fazer Imposto de Renda – e muito mais

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

– Qual o melhor bar do mundo?
– Pô, do mundo? Sei lá. Tem bar pra caramba.
– O bar perto de casa, ora.

guinetoÉ na resenha de balcão que nascem muitas das sabedorias populares consagradas pelas esquinas Brasil afora. “Lar, meu doce bar”, canta Almir Guineto, refestelado numa taça gigante de champanhe, em capa de disco só menos sensacional que a famosa do Tom Zé. Aquela.

Quem curte um botequim sabe: é mesmo o bar perto de casa o melhor do mundo. Empatado, ombro a ombro, com todos aqueles nos quais você é tratado com carinho pelos garçons; tem amizade sincera por clientes habituais da casa – mesmo sem saber o nome de todos; cultiva uma relação familiar com o dono, até porque o vê mais do que a grande maioria de seus parentes.

“Bares estragam vidas!”, dirá um fanático religioso. Algumas, talvez. Mas salva outras tantas em situações variadas. Ou vejamos.

É a data comemorativa de uma grande tradição nacional, um costume gerado por anos de miscigenação que só um povo criativo como o nosso é capaz de proporcionar. Refiro-me aos festejos do “Último Dia de Entrega do Imposto de Renda”, edição 2016. Ao sair da Barra às 19h, deparo-me com duas horas e meia de trânsito, sob chuva.

No meio do caminho, ali pela Praça Sibélius, a coisa começa a ficar interessante.

– Acabou a luz – chega o aviso, diretamente do humilde cafofo.
– Linda, já baixou os programas da Receita?
– Então… Eu ia baixar, mas aí…

Ok, não baixou. Sem problemas. Basta rotear pelo celular. Subo escada, chego em casa, ligo o laptop e… 7% de bateria. Pego o outro computador e… 6%. São 21h45. Sem pestanejar, pego uma mochila.

serafim

Bar do Serafim, na Rua Alice, em Laranjeiras

– Vamos!
– Pra casa da minha irmã?
– Não, pro Serafim!
– Aff…

O excelente bar da Rua Alice, também conhecido como anexo de casa, tem luz e internet. Entre risadas dos amigos e dos garçons, e curiosidade de outros conhecidos, sacamos aquele monte de papel, começamos a preencher os dados.

Quatro chopes depois, às 22h40, missão cumprida: não foi desta vez que o leão nos pegou. E ainda cabe saideira antes de subir a escadaria novamente. A luz? Voltou à 0h02, logo após o fim do prazo. A Light, sabemos, também é da zoeira.

O milagre da multiplicação

Um dia antes, chego no enorme Bip Bip, às 22h03. com dois reais na carteira e sem possibilidade de sacar dinheiro no caixa eletrônico, já desativado.

– Neném, tô sem dinheiro, mas…
– F@d#$-se, p%#$, pega o que você quiser, depois me dá – diz o, sim, doce Alfredinho, um amigo, um pai, um avô, um parceiro de viagem, uma figura ímpar.

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Alfredinho, no Bip Bip

Oito latinhas depois…

– Neném, foram oito. Depois a gente acerta.
– PERAE!!! – dispara, numa voz grossa que seria um misto de Lula com Joe Cocker.
– O que houve?
– Leva um dinheiro aqui, vai andar sem nada? Tá doido?

Conclusão: cheguei duro, bebi e ainda saí com dinheiro no bolso.

Outro puxadinho em Copacabana

E como toda boa noitada sempre acaba no Galeto Sat´s, fica difícil saber em quais madrugadas as histórias acontecem. É no boteco do Serjão – outro amigo que de tão querido virou família – que as resenhas se alongam até o dia clarear. Onde não se decide coisa alguma, conclui-se muito pouco, mas, como a memória fraqueja, as pautas voltam numa espécie de looping delicioso.

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Serjão, no Sat´s

– Ô, arr%$#%&do, quando é que vamos beber aquela cerveja e pegar uma piscina de novo?

Sim, esporro é sempre sinal de carinho. De carona a infinitas saideiras, pizza no balcão e turismo pelos melhores bares do Rio, Serjão oferece de tudo um muito. Com sua intensidade e carinho, faz amizade em fila de banco.

E eu fico por aqui, pensando se existe algum outro lugar onde você consiga fazer o Imposto de Renda, receber afeto, comer além do que pediu, beber como se não houvesse amanhã, ganhar convites na base do esporro – e ainda sair com um qualquer no bolso?

Lar, meu doce bar, sei lá, sei lá, sei lá.

 

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Sobre Emiliano Tolivia

Jornalista, 36 anos. Amante das resenhas - de futebol ou não - no balcão, regadas a cerveja até a última saideira, com muita pilha e sem melindres. Caso contrário, é melhor nem começar.
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