Como a justiça em Hillsborough descortina velhos chavões

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

A conclusão do inquérito da tragédia de Hillsborough, que aponta as autoridades inglesas – e não os torcedores – como culpadas pelas 96 mortes e centenas de feridos descortina questões e estapeia muitas caras tanto na Inglaterra quanto no Brasil.

Antes, a quem não conhece, a explicação. Em 15 de abril de 1989, no estádio de Hillsborough, Liverpool e Nottingham Forest duelaram pelas semifinais da Taça da Inglaterra. Com as arquibancadas superlotadas, a catástrofe se consumou. Durante anos, o as autoridades jogaram nas costas da torcida toda a culpa pelo caso. A versão oficial foi comprada durante décadas – até o último dia 26 de abril, quando a verdade foi restabelecida. Houve erro. Houve negligência. Houve fraude de provas. Houve de tudo.

hillsborough

Tragédia de Hillsborough: após 27 anos, justiça aos mortos

A decisão da Justiça inglesa mostra que, lá como cá, a sociedade de modo geral e grande parte da imprensa (da qual faço parte), com seu poder de formar opiniões, têm como péssimo habito cair no chavão, no lugar-comum, de, enfim, comprar sempre a versão oficial.

– São vândalos!
– A polícia agiu com rigor, como deveria!
– Não tinham nada que estar em campo!
– Quem vai com a família não se mete em confusão!
– É mole resolver! Lugar marcado, todo mundo sentado e preço alto!
– Clássico de torcida única!
– Isso é culpa da cerveja! Proíbe que acaba!

Basta um tumulto estourar nas arquibancadas para que chovam falsas soluções que nada resolvem e por um simples fato: quem as concebe dificilmente vai ao centro da confusão ou sequer tem interesse em entender o que ocorre. Vale a posição da PM. Repete-se uma pá de frases prontas e, bom… vamos aos comerciais.

Não é preciso dizer o quanto é injusto e revolta quem só queria ver um jogo de futebol – e muitas vezes sequer volta para casa. O spray de pimenta que faz famílias inteiras chorarem não entra nas cabines com ar condicionado ou nos estúdios geladões, nem vem incluído no pacote de PPV. Ainda não inventaram TV 3D que solte cheiro. E aí fica fácil.

No entanto, se o spray não influencia em opiniões enlatadas, a mobilização muitas vezes obtém melhores resultados. O inglês “Times”, que tanto criminalizou os torcedores, não se fez de rogado e escondeu a notícia de sua capa do dia seguinte ao julgamento. Após chuva de reclamações, o jornal se viu obrigado a publicar nova primeira página, desta vez com destaque para o caso. Se não há mea culpa por vergonha, que seja por pressão.

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Familiares cantam “You’ll Never Walk Alone”

É de cantar junto, chope em mão e lágrimas nos olhos – bem cafona assim – o vídeo das famílias das vítimas, após a audiência, entoando “You’ll Never Walk Alone”, clássica música do Liverpool. É o sentimento de, 27 anos depois, ter seu parente querido absolvido de sua própria morte. É a canção do triunfo. É a única vitória possível em uma partida que até então só contava perdedores.

Enquanto isso, por aqui…

Na última semana, houve a final da Primeira Liga entre Fluminense e Atlético-PR em Juiz de Fora, em um estádio de modelo antigo. Cimento, torcida de pé, pirotecnia. Fim de jogo, título tricolor. Os jogadores vão para a grade. Torcedores se aglomeram por ali para festejar junto aos heróis. A PM chega. Alguns tentam invadir o campo. O que fazem os policiais, em tese preparados para a situação? Pegam estes poucos e os conduzem para onde quer que seja?

Não, claro que não. Como quem joga “Bom Ar” num carro fechado ou, para ser mais emblemático, “Baigon” em baratas e insetos, as forças policiais começam a despejar, a esmo, spray de pimenta, que logo chega a boa parte da arquibancada, iniciando pequenas correrias. Há, evidentemente, reação. Ninguém é inocente de achar que muitos componentes de organizadas não são beligerantes e não gostam de tumulto. Só que a ordem dos fatores entre ação e reação é importante neste caso. Ainda mais quando parte de quem deveria ser responsável por manter a paz.

Vai a sequência. Bombas de efeito moral atiradas sem qualquer precisão ou motivo no meio da arquibancada. Bombas de gás lacrimogêneo. Balas de borracha. Muitas. Em qualquer lugar que houvesse concentração de pessoas – o óbvio em um estádio lotado. A clara intenção era esvaziar o local.

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Flu recebe a taça. Em uma das arquibancadas, quase ninguém vê após ação da PM

Idosos passando mal, crianças chorando, homens e mulheres que só queriam ver o Fluminense erguer o troféu foram obrigados a realizar verdadeira trilha pelo mato. E é justamente o inusitado formato do estádio, com uma floresta acima das arquibancadas, que impediu uma tragédia – ou haveria pisoteamento, não tenho dúvida.

Quando finalmente a taça foi entregue, um lado da arquibancada estava completamente deserto, enquanto o ar empesteado de “lei e ordem” ainda maltratava os tricolores.

– Ué, mas eu vi os caras falando que a polícia havia agido de forma correta… – questiona um amigo que ficou no Rio e não soube de nada além do que foi mostrado.

Como de hábito, todas as opiniões caíram na série de comentários feitos acima. Já escrevi sobre questões semelhantes aqui no Futequim: cerveja; torcidas organizadas; jogos fora. Como chavão e lugar-comum não resolvem coisa alguma, os problemas persistem. São como espuma de chope ruim, somem em menos 30 segundos.

O mundo à parte que vive o futebol

E, sob o manto das falsas soluções, destroem culturas fundamentais do futebol, afastam o povão do estádio, matam pouco a pouco o esporte – e nada melhora. De que adianta, para ficar em um exemplo atual, fazer clássico com torcida única se as organizadas se matam a quilômetros de distância do jogo? É para resolver ou para dar satisfação, normalmente a quem não vai às partidas? Fácil dizer.

Que o futebol vive em um mundo à parte, ninguém discute. Em qualquer outro lugar, se alguém morre, o evento termina. Não no planeta bola. Em boa dose porque, quem possui o poder de resolver os problemas, não tem rigorosamente a menor ideia do que está fazendo.

Campeonato Brasileiro 1992 - Botafogo x Flamengo

Maracanã 92: mortos e jogo até o fim

É ou não é uma realidade paralela? Em 1992, no Maracanã, a grade da arquibancada cedeu, pessoas morreram, e a decisão do Brasileirão não parou. Em Heysel (Bélgica), 1985, 39 mortos e bola rolando até o fim. Em 2000, em São Januário, o confronto só não foi reiniciado por intervenção direta do governador do Rio de Janeiro.

O bicho pega, mas o show não pode parar. Estamos a cada rodada esperando nosso Hillsborough, nosso Heysel, um novo Maracanã.  E já temos os culpados – e os inocentados. Morreu alguém? Paciência.

Morreu na contramão atrapalhando o sábado – de futebol. E a culpa é dele, dirão.

 

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Sobre Emiliano Tolivia

Jornalista, 36 anos. Amante das resenhas - de futebol ou não - no balcão, regadas a cerveja até a última saideira, com muita pilha e sem melindres. Caso contrário, é melhor nem começar.
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2 respostas para Como a justiça em Hillsborough descortina velhos chavões

  1. Lucio de Castro disse:

    É bom ter a pena afiada e comprometida com a rua como a de Emiliano Tolivia de volta. Esperamos que para ficar.
    Lucio de Castro

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