Modernice entra em campo e finca um mastro no torcedor

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

Você pode substituir a pirotecnia por umas cheerleaders; bandeirinhas e bandeirões por bastões infláveis de banco e caxirolas; cimentão por confortáveis cadeiras; coreografias por gritos comandados pelo telão; mascotes por uma corrida alucinada à la Wiliam Wallace.

E você pode, finalmente, substituir também o futebol por, sei lá, teatro. As dicas de trocar bacon por alface estão deixando também o velho esporte bretão cada vez mais insosso. Como se não bastasse afastar os adultos, a modernice desenfreada agora trata de alijar também as crianças. É uma surpresa a cada rodada.

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Wallace finca bandeira: Fla deixa mascotes para trás em corrida sem o menor tato

A cena da entrada do Flamengo em campo contra o Vasco é triste sob muitos aspectos. Não pela quebra de protocolo, uma grande chatice. O principal, claro, é ver crianças com cara de que o Play Station pifou ao perceberem seus ídolos passando batidos. Já vi esse mesmo olhar em muito marmanjo ao saber que a cozinha do bar fechou e não vai rolar saideira. Só que bode velho sobe a colina e volta no dia seguinte. Com criança magoada, o sino toca diferente.

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Bode Cheiroso na Copa: excelente bar

– Opa, falando nisso, vamos ao Bode Cheiroso continuar essa resenha. Quais são os outros aspectos tristes afinal? – diz um amigo, num misto de intimação, prontamente cumprida, e questionário.

Vamos à resposta. Há uma percepção cada vez maior de que os jogadores estão sendo criados em bolhas, frios e indiferentes ao mundo que os cerca. Não há aeroporto lotado, saguão de hotel recheado de crianças, torcida esbaforida que os façam tirar, por um minuto, os aquecedores de orelha que  chamam de fone.

Blindados por uma sequência interminável de assessores – do clube, pessoal, assessor do assessor… -, os atletas cada vez menos dão entrevistas. E o fazem como uma enorme concessão. Como se o principal motivo de uma coletiva não fosse dar satisfação ao seu torcedor.

Problema detectado. Mas as soluções…

Ou seja, o diagnóstico está perfeito. A encrenca está nas soluções. Muito da falta de identidade do torcedor com os jogadores – e vice-versa – vem justamente desse afastamento de pequenos detalhes que tornam a atmosfera de um estádio tão apaixonante. E é ali, no cimento, naquela catarse inexplicável, que nasce o amor pelo esporte. Aprendemos desde cedo. Nós, os bodes velhos. Mas estão tolhendo este sentimento dos cabritos.

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Criança e ídolo: não tem preço

– Podes crer. Quer um exemplo? Filho, qual é o time do teu primo?
– Barcelona, pai.
– Imagina a irritação do pai…

E o aspecto mais triste, a meu ver, é que as soluções encontradas passam, novamente, por modernismos. Fico imaginando uma reunião entre essa turma.

– O que podemos fazer para empolgar o torcedor?
– Hum… E se a gente fizesse uma entrada como as da NFL? Ou um Hakka? De repente, colocar um rock and roll no sistema de som? Cheerleaders com pompons!
– CARA, você é um gênio! Toma aqui um aumento!
– Obrigado, obrigado, bondade sua…

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Gênio da lâmpada: mais real do que parece

E assim, em rompantes de genialidade, os clubes, em nome de uma modernice deslumbrada, de uma vira-latice cafona, vão buscando inspiração em culturas e esportes que nada têm a ver com o nosso jogo. Não há bandeira. Apenas um mastro, tal qual uma estaca, fincado bem no meio do peito do nosso futebol.

Nada disso funciona. Nem funcionará, não tem como. Chico Buarque certa vez sentenciou que falta ao Brasil criar o “Ministério do vai dar merda”. É isso. Porque ter ideia ruim é normal. Quem nunca? O grande culpado, porém, é o sujeito que diz “boa ideia! Gênio!”. Os clubes têm diretor de ar condicionado, supervisor de estacionamento, vice-presidente de peteca… Urge a contratação de um diretor do “vai dar merda”.

E seria este profissional que entraria na sala, ouviria pacientemente as ideias e, de forma ponderada, calma, com muito tato, diria:

– VOCÊS ESTÃO MALUCOS? ISSO AQUI É FUTEBOL. TCHAU.

Então, como uma luz divina, um big bang intracraniano, os distintos dirigentes perceberiam que a resposta para o futuro está no passado. Nunca foi preciso de muito.

NFL é NFL, NBA é NBA. Ótimo. Mas, no olhar das crianças que ora andam desiludidas, é preciso que futebol volte a ser futebol.

Ou vai dar m…

 

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Sobre Emiliano Tolivia

Jornalista, 36 anos. Amante das resenhas - de futebol ou não - no balcão, regadas a cerveja até a última saideira, com muita pilha e sem melindres. Caso contrário, é melhor nem começar.
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