A internet voa, a lerdeza cresce, e o mundo fica mais devagar

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

– Viu o que rolou no jogo de ontem?
– …
– Hein?
– Quê?
– O que te perguntei.
– O quê?
– Veio aqui pra resenhar ou pra ficar no celular???

Quem já não foi protagonista de uma “conversa” destas, de um lado ou de outro? Vivemos num momento de bombardeio de informações, de interações virtuais, de estar por dentro de tudo o tempo todo. É difícil ficar alheio por muito tempo. Não há como fugir.

zumbi

Walking dead? Não, mas quase… E sai da frente!

O que só torna ainda mais contrassenso o fato de que tanta tecnologia está tornando o mundo real mais lento. Não só lento, mas lerdo mesmo. Categoria lesma ladeira acima. Cágado manco.

Ao andar na rua, o que mais se vê são pessoas com o celular em punho. Ali, naquela telinha diminuta, é o próprio The Flash. Manda meme no Whatsapp, curte foto fofa de cachorro no Facebook, retuíta o Joaquin Teixeira, dá match no Tinder, volta para o Wapp para mandar um paaaaahhh… Tudo em 30 segundos.

Fora da telinha, porém, a agilidade mais se assemelha à de um zumbi. Passos lentos, desatenção aos carros, às bicicletas, aos sinais. Quem nunca ficou atrás de alguém assim em uma rua estreita, tentando ultrapassar pela direita, pela esquerda, por cima, por baixo… e nada? A agonia não tem fim.

wappAs obras espalhadas por todo o Rio de Janeiro acabaram com o trânsito da cidade – ao menos até a conclusão delas. Não há mais hora. Concordo. Mas não me parece absurdo constatar que os smartphones estão colaborando com os engarrafamentos. A pessoa para no sinal e vai lá dar aquela checadinha, por que não?

Impeachment? Tragédia na ciclovia? Semifinal de Carioca? Ah não, espera aí, eu tenho que dar minha opinião agora e… FOOOOOOOOOMMMMMMMMMMM, tome buzina. O sinal já estava aberto. Reclama, larga o celular, passa a primeira e, enfim, anda. Logo o sinal fica amarelo e só dois carros passam. O último, também distraído, não percebe que fechou o cruzamento. E o processo se repete na rua perpendicular, num movimento que vai durar durante toda a hora do rush.

Multiplique isso por milhares de carros em centenas de cruzamentos e perceba o quanto essas pequenas demoras pioram o que já é lamentavelmente lento.

E é possível dar inúmeros exemplos. Como quem chega em um restaurante e demora eras para escolher algo, entre um check-in e outro. Aumenta o tempo, cresce a fila, potencializa a insatisfação. Todos perdem. Menos, claro, a rede social, que não poderia sobreviver mais um minuto sem saber o que a pessoa estava comendo. Questão de segurança nacional.

A dura tarefa de tentar

De minha parte, posso dizer que precisei diminuir drasticamente minhas interações para, de certa forma, me libertar um pouco. Não é fácil. Já me irritei bastante com amigos quando ouvia “larga o celular!”. É meu, ora. Mas depois de um tempo, ao notar que eu estava apenas de corpo presente nos chopes, nas rodas de conversa, tive que me forçar a melhorar – a palavra é essa, não tem para onde correr.

celular2

Ultrapassar? Só pela rua…

Não é fácil. As notificações são viciantes. E os aplicativos estimulam a obsessão. Basta um ctrl+c e o Facebook já pergunta se você quer postar o link. É esbarrar em um botão errado e mandar um nudes sem querer – eu não, claro, mas tem gente aí que…

Veja se não reconhecem outro tipo que anda pelas esquinas e bares. Aquele que é um leão nas redes sociais, faz textão, compartilha de tudo, mil opiniões, conflitos, o diabo a quatro. E, ao vivo, mal fala. Para extrair um diálogo minimamente fluente é um parto.

A internet é um caminho sem volta – e ainda bem! Só ainda falta entender seu bom uso. Principalmente, com as redes sociais. A ideia de sua criação certamente não é perder amigos, brigar com familiares, ser demitido por escrever bobagens ou até mesmo acabar preso. Mas, na falsa segurança do teclado, moderação passou a ser artigo raro. Refletir tornou-se atividade de um minuto ou dois.

E se fica mais lento, o mundo fica também mais individualista. O que é a selfie – e seu abominável pau – se não evitar ter que pedir para alguém tirar uma foto para você? O que é o Tinder se não deixar de lado o bom papo, o risco do “não”, o frio na barriga, para chegar logo no fim, como se o meio não fosse interessante?

A luta é diária, a tentação de pegar o celular a todo momento é enorme, mas a resenha há de vencer. Desconectar-se um pouquinho é preciso. Ou ao menos há que se tentar. Nem que seja para não enrolar o trânsito.

– Larga esse blog e vem beber que hoje é sexta! –  leio, diretamente do balcão do Sat´s, via Whatsapp, claro.

Ok!

Ah sim, mandar nudes continua liberado, obrigado, de nada.

 

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Sobre Emiliano Tolivia

Jornalista, 36 anos. Amante das resenhas - de futebol ou não - no balcão, regadas a cerveja até a última saideira, com muita pilha e sem melindres. Caso contrário, é melhor nem começar.
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