Botequim x Cartório: qual o seu lado na Primeira Liga?

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

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Taça da Primeira Liga: ainda é bonita

No balcão do bar, um grupo de tricolores marca a ida para Juiz de Fora. Sai às 14h ou 15h? Reserva hotel ou faz um bate-volta? Já comprou o ingresso? Olha que está acabando. Se ganhar, a comemoração será onde? É véspera de final da Primeira Liga, contra o Atlético-PR. Em Curitiba, a cena se repete entre rubro-negros.

Eis que surge na roda, entre braços mais altos, tal qual um tatu se embrenhando na terra, um rival, possuído pelo espírito de porco, que não pode faltar em finais.

– Vocês estão de sacanagem que vão se preocupar com esse torneio amistoso, né? – diz o criador do caos.

Afinal, vale ou não vale título a edição inaugural da Primeira Liga? Vamos retroceder no tempo. Nos meus tempos de garoto… Eita expressão de velho. Bom, nos meus tempos de garoto, os clubes exaltavam suas conquistas em torneios não-oficiais. Teresa Herrera, Ramón de Carranza, Copa Kirin, Torneio de Paris, todos tinham lugar de destaque nas salas de troféus. È preciso ressalvar que antigamente havia menos competições com chancela superior e, com isso, mais amistosos, não só pelo Brasil como pelo mundo.

Para exemplificar, de acordo com levantamento da revista argentina “El Gráfico”, dos 1285 gols de Pelé, 757 gols foram em jogos oficiais. Assim, o Rei do Futebol fica atrás de Romário e do tcheco Josef Bican (?) na artilharia de todos os tempos.

Mas… a ideia é justamente fugir do oficialismo e da numeralha. Aqui, é resenha. Vamos, pois, a ela.

– A CBF não reconhece! – brada o Zé da quizumba.

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Torcida no cartório em busca de certidões

Pois é. É de se notar uma mudança no torcedor brasileiro há um bom tempo. Além de estar ficando mais chato (assunto tratado aqui), tem ficado também mais cri-cri. Se não tiver o selo da Fifa, o carimbo da CBF, registrado em cartório, três vias, pagamento de duas taxas, averbação da casamento e certidão negativa de débitos na Receita Federal, ufa!, naaaaaaão vale. E ponto.

E aí fico pensando cá com minhas bolachas de Brahma descascadas pelo bom e continuado uso: qual a credibilidade que pode ter um selo da CBF, uma chancela da Fifa, a ponto de o sujeito se impedir de comemorar uma conquista, seja ela qual for? “Olha, veja, o Blatter não aprova, o Marín não ratificou, melhor ficar em casa”. Ora, me poupem.

É evidente que não se trata de um torneio de primeira grandeza. Ainda. E pode nem vir a ser. Os mais otimistas veem nela um embrião para a necessária Liga de clubes. Pode acontecer? Se os paulistas, principalmente, comprarem o barulho, pode sim. Mas não é disso que trata este texto – ou voltaremos às oficialidades.

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Se eles não aprovam, melhor não comemorar?

É um torneio em que seis dos maiores clubes do Brasil participaram. Além de outras forças importantes do futebol nacional. E não jogou quem não quis. Foi transmitido na televisão. Terá final em cidade neutra, e os torcedores de Flu e Furacão vão esgotar os 30 mil ingressos. Em que mundo ganhar esse caneco não é motivo para fazer as ações da Ambev e da Heineken subirem? Certamente no planeta rodoviária, aquele habitado por malas. Óbvio.

A Copa Sul-Americana aos poucos vai adquirindo o peso que lhe cabe. Já foi um campeonato que todos queriam vaga, mas ninguém jogava para valer. A Copa do Brasil já foi chamada de “caça-níquel”. No primeiro título do Flamengo, em 1990, o jogo de ida ocorreu na mesma Juiz de Fora para um público mínimo, contra o Goiás. E quem há de dizer que o Fla não é tricampeão? Está lá, conta, é tri e fim de papo.

– Qual a finalidade desse campeonato mequetrefe? Dá vaga pra quê? – insiste.

De cara, garante vaga ao botequim, ao camarote da pilha. Que o torcedor do Fluminense ou do Furacão aproveite o feriado de quinta-feira e só volte para casa sujo, rasgado, inebriado, bandeira em punho, com a certeza de que o futebol vale a pena pela bola na rede, não por selos de quem não merece o suor dos seus apaixonados e fiéis seguidores.

Não é por Deus, pela família, pelos meus filhos e netos, pela paz em Jerusalém, pelos corretores de seguro do país, pela Fifa, pela CBF.

É pela resenha, pelo bar, pela zoação, pelo torcedor, pela bola na rede, pela chuteira preta, pelo futebol enfim: a Primeira Liga é título sim.

 

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Sobre Emiliano Tolivia

Jornalista, 36 anos. Amante das resenhas - de futebol ou não - no balcão, regadas a cerveja até a última saideira, com muita pilha e sem melindres. Caso contrário, é melhor nem começar.
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