O melhor, o maior ou o mais vencedor? A eterna resenha

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

Um assunto que faz tanto sucesso quanto lista em internet é brincar de “quem foi o melhor…” em balcão de bar. Eleger o grande jogador de um clube é uma árdua tarefa para chopes e mais chopes – e no fim, não se decidir coisa alguma.

A meu ver, esse debate, delicioso como um polvo ao vinagrete e espinhoso como uma corvina frita, parte de premissas erradas. O que define, afinal, um ídolo? A qualidade, os feitos e/ou a identificação? O que é ser maior? É o mesmo que ser melhor? Ídolo não é necessariamente craque. E vice-versa. São infinitas as possibilidades, mas faltam horas de funcionamento aos bares para esgotar o assunto.

Pelé

Pelé nos braços do povo: milésimo gol do maior de todos os jogadores

Alguns poucos casos agregam todos os quesitos em uma resposta só. Mas logo começam as divergências. Ou vejam se não é assim:

Cachaça A: – Maior ídolo do Flamengo é o Zico, sem dúvida. Como Pelé no Santos

Cachaça B: – Verdade. Assim como o do Vasco é o Roberto.

Cachaça C: – Opa! Não me vem com Roberto. Pra mim, já é o Juninho. Como o Zico no Fla eu diria que é o Garrincha no Botafogo.

Cachaça A: – Olha… Dá pra dizer que sim, mas… Pra mim, já é o Nilton Santos. É meu ídolo. Isso muda com o tempo. Vê o Fred no Flu.

Cachaça B: – O que tem o Fred? Maior ídolo? Contemporâneo pode ser, mas tem Castilho, Assis… E se quiser saber, eu prefiro o Conca.

Cachaça C: – Afff… Dá três chopes, por favor.

O caso do botafoguense mostra como, com o passar do tempo, a presença física de um ídolo pode fazer a diferença. Impossível questionar que Garrincha tenha sido o melhor. Porém, Nilton Santos esteve junto do clube até o fim de sua vida e conquistou o carinho de quem nunca o assistiu jogar – nem a ele nem a Mané.

rivellino

Rivellino: dividido entre Flu e Corinthians

Mesmo caso se aplica a Fred. Melhores que ele dá para citar alguns na história do Flu. Gerson, Didi e Rivellino, apenas para formar um meio-campo histórico de encerrar discussões. Só que título conta. Representatividade conta. E tantos outros fatores contam nessa equação que não passa nem perto da matemática. É tudo subjetivo, ao sabor do cliente, que vai tentar empurrar sua opinião como a única verdade, bolando regra de três e afins – mas é tudo mero palpite.

Pelé é um sujeito difícil de questionar em qualquer campo – esportivo – que seja. Zico é daqueles casos que somam praticamente todas as características para assumir o posto. Ok, vá lá, Renato no Grêmio. Só que, indo adiante, a brincadeira fica divertida.

Inter é o Falcão! (Ou o Fernandão?)
Cruzeiro é o Tostão! (Mas o Alex, hein…)
Atlético-MG é o Reinaldo! (Mas essa Libertadores do Ronaldinho…)
São Paulo é o Raí! (Ou o Rogério Ceni?)
Palmeiras é o Ademir da Guia! (Ou o Marcos?)

ziconunes

Zico é quase unanimidade no Fla (mas o Nunes…)

Mesmo o corintiano se vê dividido. Rivellino? Marcelinho? Guerrero fez o gol mais relevante da história do clube, mas seu prestígio não chega  próximo do carinho que existe por Basílio e o gol que tirou o Corinthians da fila em 1977.

A relação com o ídolo é extremamente pessoal. Ainda que se reconheça a qualidades de um jogador, a condição de idolatria surge a partir de algum estalo, um brilho no olhar diferente que, provavelmente, carrega consigo a inocência da infância. Tenho amigos que amam o Zico – mas, lá no fundo, eles gostam mesmo é do Nunes. o artilheiro das decisões. Outro amigo viu craques e mais craques com a camisa do Flu, mas o coração bate mesmo é pelo Félix – que sequer é o melhor goleiro da história tricolor. Quer dizer, para ele é. Das Laranjeiras. Do mundo. Da galáxia.

– Tá, escolher o melhor é complicado mesmo. Mas o time de todos os tempos já é mais fácil, abre mais – sentencia um amigo no bar do Zé Borracha, um meia-porta lindamente horroroso na Rua das Laranjeiras, que tem cerveja gelada e atende na madruga aos órfãos do Varandas, bar 24h que virou uma… casa de suco.

Pois discordo. O que vale, novamente, são títulos ou feitos? O Fluminense poderia fazer um time com Ronaldinho, Romário e Edmundo no ataque, por exemplo. Mas tem cabimento tirar um Assis, um Romerito para tal? Não, não tem. Bebeto e Seedorf caberiam numa seleção do Botafogo? Nunca.

Tem o melhor, o maior, o mais vencedor e por aí vai. Reduzir, a meu ver, empobrece o debate, o clube, a resenha.

E o dono do bar.

 

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Sobre Emiliano Tolivia

Jornalista, 36 anos. Amante das resenhas - de futebol ou não - no balcão, regadas a cerveja até a última saideira, com muita pilha e sem melindres. Caso contrário, é melhor nem começar.
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2 respostas para O melhor, o maior ou o mais vencedor? A eterna resenha

  1. Igor Wolfe disse:

    Que assunto gostoso!
    Eu li sorrindo. Acredito que cabe mais uns 4 posts sobre o assunto antes de pedir a saideira.
    O “caso Fred” fez reacender esta discussão e me vi discutindo isso com outros amigos. Após falar, falar, falar e não chegar a conclusão alguma, eu encerrei a discussão dizendo que “ídolo não se discute. É muito pessoal!”
    Pior ainda é quando torcedores de outros clubes querem dizer quem é ídolo ou não no seu clube. Isso me deixa puto tipo quando a cerveja vem quente.

    Acho que você resumiu perfeitamente bem quando disse que “a condição de idolatria surge a partir de algum estalo, um brilho no olhar diferente”. É isso!

    Polêmica: Eu tendo a preferir o Conca ao Fred (Ambos ídolos, imo). É louco isso, né?! O Conca (sim, foi ele!) nos deu um Brasileiro jogando todas as partidas, saindo como craque do campeonato e tudo que tinha direito. Nos tirou de uma fila absurda e nos trouxe um título que, quando o Brasileiro virou pontos corridos, eu desisti de sonhar! Eu achava que o Fluminense não venceria um Brasileiro de pontos corridos nem tão cedo (pra não dizer nunca)! Fico achando que o Conca abriu as portas pro que veio depois. hahahahaha.

    Mais um ótimo texto, Emiliano! Vê se abre o Futequim mais vezes, pô! A garganta tá seca aqui!

    Forte abraço.

    Igor

    • Fala, Igor! Pois é, esse assunto rende um livro quase rs. É sim, torcedor de um time dando pitaco no ídolo de outro é absolutamente irritante. E tem mais gente que prefere o Conca ao Fred rsrs.

      Prometo tentar. Valeu mesmo. Abraço!

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