Tem “caraculpa” eu? Não, cervejeiro, não tem…

Por Emiliano Tolivia (@emilianotolivia)

Com um header desses, nada melhor para começar o blog do que com um tema que só vai ganhar importância até a Copa do Mundo: a cerveja nos estádios. Ou melhor, a sua absurda proibição. Absurda porque a grande explicação é a violência fora dos campos. E não há gancho melhor do que a pancadaria entre Gaviões da Fiel e Mancha Verde, que acabou com um morto no último clássico paulista.

Quer dizer então que mil pessoas – isso é coisa pra burro! – saem de casa às 9h de um domingão, munidos de paus, pedras, rojões e armas de fogo para brigar e a culpa da violência é da cervejinha do coroa barrigudo que fica atrás do banco cornetando o técnico? Não, não é. E todos os envolvidos politicamente na história sabem que não é. Pena que muita gente caia nessa esparrela, ainda que não frequentem estádios, apenas por achar que é o certo.

– Ah, o cara bebe, fica violento e mais suscetível a brigar na arquibancada – corneta o amigo no balcão do Sat´s.

Pois não é. Não, ao menos, a briga que afasta o torcedor do estádio. Mas a questão é muito mais complicada e profunda que isso.

Pede mais um chope – e talvez um Plasil – porque enoja. Em Brasília e nos estados, políticos usam a questão como tema de palanque, hipócrita e demagogicamente. Em nome da “família nos estádios”, fazem discursos vazios a respeito. Sobre o tema, temos até o Ministério da Saúde engajado. Seria comovente essa preocupação governamental, se não fosse mera vontade de aparecer. No que exatamente o ministro pode interferir? Alcoolismo não é resolvido em 90 minutos. O que muda, de fato, de forma prática, para a saúde do cidadão, ficar durante duas horas sem beber uma cerveja?

Como em qualquer lugar – bar, restaurante, praia -, quando dois caras bebem e se desentendem, eventualmente saem no tapa, a polícia tem que chegar e tirar os dois brigões de lá. Ponto. Ou vamos fechar os bares, restaurantes e esvaziar as praias toda vez que isso ocorrer no dia a dia? Ou o futebol é um mundo à parte? Não, não é. Então, milhares de pessoas não podem pagar por dois, quatro, seis, oito – que sejam – pessoas que não souberam respeitar os limites. Ou é certo a maioria correta pagar pela minoria errada?

Fazer discursos conservadores, politicamente corretos, dá voto. Por mais que o cara burle um monte de leis, ele acha bonito – e vai lá e vota. Claro que a Fifa está defendendo os interesses do seu patrocinador. A preocupação não é com o torcedor ou com a liberação da cerveja em outros eventos que não a Copa do Mundo. Ela não está nem aí. Mas ao menos, sem a menor intenção de ajudar o torcedor de cada Olaria x Bangu nosso de todo Estadual, ela acaba fomentando o debate.

Aí chegamos às situações ridículas que presenciamos nos estádios do Brasil – posso falar mais pelo Rio. Não se vende cerveja nos estádios, mas há nos bares no entorno. Proibição num raio de 2 km? Lei que pega, lei que não pega, aquela velha história… Então, mesmo em finais de campeonato, temos estádios vazios a dez minutos do pontapé inicial, enquanto os arredores estão lotados. Faltando dois minutos para o começo, multidões se aglomeram nas catracas, filas sem fim, a PM, com aquele preparo que só uma ditadura é capaz de formar, entra com cavalo, gás de pimenta, cassetete e armas de bala de borracha. Caos instalado, olhos lacrimejantes, famílias indo embora assustadas.

Não tem jeito, não tem pesquisa, não tem estudo mirabolante, é puro empirismo. No mínimo metade dos torcedores que frequentam estádios gosta de beber uma cervejinha antes do jogo. Faz parte do ritual. É folga, é relaxamento. Aí então começam as discussões inócuas sobre como fazer para o público entrar com antecedência. As ideias são geniais, preciso confessar. É muita criatividade. Sob um calor muitas vezes de 40°C, inventam disputa de pênaltis, gol do meio de campo… Sério, quem é o camarada que vai entrar para ver isso? Nem o mais cândido torcedor de vôlei cai nessa.

Estádios vazios minutos antes de uma decisão é fenômeno novo. Eu cresci e peguei, não tem muito tempo, preliminar de juniores e cerveja no Maracanã. Aliás, peguei inclusive cerveja de garrafa – ok, nem peço tanto, mas lembro bem. No segundo tempo da preliminar, era casa cheia, torcidas inflamadas, clima de clássico. Itaipava a três reais – na época isso já era bem caro – era uma dádiva. Esqueça, isso não volta mais.

Enquanto isso, as organizadas…

Retomando a questão da violência, alguém, de opinião isenta, realmente acha que as torcidas organizadas brigam por causa da cerveja vendida nos 90 minutos no estádio? Toda vez que estou na porta do estádio bebendo minha justa cervejinha, presencio o “espetáculo” da chegada de bondes ao local. São milhares de sujeitos mal encarados, armados daquela marra e coragem que só as multidões são capazes de proporcionar, cantando músicas de vou pegar não sei quem, sei lá quem correu não sei onde. Pessoas que se juntaram desde cedo e estão fazendo das suas pela cidade – bêbados e calibrados, de entorpecentes ou apenas de adrenalina. Aliás, cerveja não entra no estádio, mas pó e maconha, opa…

E pior, escoltados por um forte aparato policial. Quer dizer, você – que pagou seu ingresso, muitas vezes teve que esconder sua camisa para não apanhar de organizados do outro lado, teve dificuldade em estacionar seu carro, foi coagido por flanelinhas que trabalham livremente enquanto guardas municipais só aparecem quando o jogo começa para, aí então, multar e rebocar seu carro – está abandonado pelo governo. E vale o mesmo para os péssimos transportes públicos, quando não é ainda pior.

Mas aqueles caras de quem eu falei antes, eles, que não pagam ingressos ou os obtêm com desconto, serão protegidos deles mesmos – incrível! – até dentro do estádio, para ficar do seu lado, entoando cânticos de guerra. Como se isso não fosse apologia ao crime. Na verdade, como se isso não fosse uma confissão de crime. Eles entregam melodicamente seus delitos, nenhum deles prescrito, e o poder público acha bacana, se omite mais uma vez. Reis do pedaço. Experimente reclamar. Facções que muitas vezes intimidam torcedores que tentam fazer algo diferente, de apoio ao time em campo, porque, claro, não querem perder espaço e bocadas. Exemplos pelo Brasil afora não faltam.

Imagine você, num posto de gasolina, às 9h. De repente, num clima “Coração Valente”, aparecem 500 Willians Wallaces de um lado, mais 500 do outro, e você não sabe se acelera, se vai, se fica, se paga a gasolina. Isso não é problema de cerveja no estádio, isso é problema de polícia. Muitos deles seguiram para o Pacaembu e lá arrumaram nova confusão. Outros foram no enterro no dia seguinte. E, em estádios pelo Brasil inteiro, todos voltam a cada domingo, são caras conhecidas. Não os pegam porque não querem, porque à PM basta dar umas “porradinhas” que tudo bem, está cumprido o papel.

– Tinha que tacar uma rede e jogar tudo no mar – emenda o camarada do balcão, torre de bolachas crescendo, já com aquela sinceridade que a cerveja proporciona.

Calma, amigo, as coisas não se resolvem assim. E os peixes não têm culpa de nada. Os peixes não, mas muita gente do futebol tem. Da PM e do poder público já falamos. Mas não para por aí.

Clubes e diretoria têm responsabilidade nisso porque cedem ingressos gratuitos para as organizadas, que por sua vez, os revendem. Muitas vezes, facções com dez componentes recebem 50 bilhetes. Ou seja, o clube proporciona um Bolsa Família de luxo para algumas poucas pessoas. Cartolas, vários deles ex-integrantes das organizadas, são benevolentes com a causa. Dirigentes das torcidas têm acesso livre à sala da alta cúpula, linha direta com presidente, são consultados sobre a aceitação de determinados jogadores com passado em outros clubes e por aí vai.

Jogadores têm responsabilidade nisso porque dão dinheiro, pagam churrasco, puxam saco para terem seus nomes gritados por parte da arquibancada, mesmo que a contragosto do restante do público presente. E que se omitem quando são agredidos em noitadas ou até mesmo em treino.

Treinadores têm responsabilidade nisso porque dão dinheiro para que as facções levem faixas de apoio, não o vaiem, tentem segurá-lo ao máximo no sempre muito bem remunerado cargo.

Pessoas que se dizem de bem e não querem ser tachadas de marginais têm responsabilidade nisso porque, ainda que não se envolvam na violência diretamente, apoiam e até financiam as organizadas, pagando mensalidades, comprando camisas. Numa boa, quem é de bem não se mistura com quem se sabe, de antemão, que não presta. É conivente – e às vezes acaba acordando de cabeça para baixo por causa dos morcegos.

Até tem jeito, mas querer é outra história

A cada morte sob pretexto de futebol, aparecem ideias mirabolantes, promessas de proibições, mas tudo isso cai por terra antes de o segundo chope esquentar. A causa da violência do futebol é muito mais profunda que a simples cerveja no estádio – discussão inócua.

O complicado é que os próprios clubes não demonstram muito interesse em dar fim ao problema. E, ainda que queiram, não é missão para exército de um homem só. Não é com uma canetada que um dirigente vai acabar com a farra. O sujeito, ainda que de boa fé, tem família, tem um trabalho, tem vida – e, como em tudo neste país, quem acaba com mamata acaba ameaçado, tem que fugir, é obrigado a desistir… Se ao menos o MP entrasse numa cruzada conjunta, quem sabe. Mas duvido. Até o momento, a grande medida cogitada é proibir a entrada das organizadas. Não custa lembrar que a Mancha Verde foi extinta e criaram a Mancha Alviverde. Ou seja, riram na cara da Justiça.

Enquanto isso, o torcedor de bem, aquele que ainda acredita que pode tirar alguma diversão do estádio, daquele velho hábito que aprendeu com o pai, vai carregando nas costas a culpa pela violência no futebol. Só porque, veja só, ele queria beber uma cerveja atrás do banco, reclamar do seu treinador e, talvez, cometer a barbárie de xingar o juiz.

Seja bem-vindo e, se quiser, pague a saideira enquanto ainda nos permitem.

Um abraço.

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Sobre Emiliano Tolivia

Jornalista, 36 anos. Amante das resenhas - de futebol ou não - no balcão, regadas a cerveja até a última saideira, com muita pilha e sem melindres. Caso contrário, é melhor nem começar.
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19 respostas para Tem “caraculpa” eu? Não, cervejeiro, não tem…

  1. Pingback: Violência no futebol: muitos pitacos e pouco conhecimento | futequim

  2. emanueljunior disse:

    Ótimo texto! Sou paraense de Belém do Pará, 32, torcedor do Paysandu. Aqui, como na grande maioria do Brasil, também é proibida a venda de bebida alcóolica nos estádios. Sou assíduo frequentador de jogos desde os 8 anos de idade. De fato, o prazer de ir a um jogo de futebol está cada vez menor. No meu caso, já não bastasse o meu time do coração (que já jogou Libertadores em 2003, fazendo bonito, inclusive) estar patinando na série C desde 2007, o “evento desestressante” que era ir a um jogo: tomar uma cervejinha com os amigos, rir, xingar mãe do juiz, técnico e do atacante ‘perdegol’, perdeu muito da sua graça.
    Abraços

  3. Marcelo Alvarenga disse:

    Boa, gringo!

    Muita hipocrisia mesmo.
    Ainda mais no caso da Copa. Será tão ruim permitir cerveja nos estádios durante a Copa? Menos de um mês de evento e criam este debate para político aparecer…
    O problema da violência são as organizadas(parte delas) que, independente de álcool, vão para jogo só pra mostrar quem é mais macho.Tinha que fazer o que a Inglaterra fez com os Hooligans, mas para as autoridades brasileiras isto dá um trabaaaaalho…
    Tem que ter leis específicas para punir o crime destes “torcedores”, mas punir no Brasil é difíííííícil…

  4. Mamá disse:

    Concordo. Até porque, quem quer beber, bebe mesmo é antes de chegar ao estádio. Os 90 minutos de partida ele aproveita para cornetar o time e xingar o adversário, vez ou outra tomando um gole da marvada.

    Essa coisa de proibir a bebida parece mais quando eu recebo uma visita surpresa e jogo toda desarrumação para o quarto da bagunça. A visita chega, curte o ambiente “limpinho” e acha uma graça. Mas quando ela vai embora, o lixo permanece no mesmo lugar de sempre.

    Isso soa mais como incompetência do que como advertência.

    Ridículo e atesta incapacidade.

    A velha e boa política de matar o mensageiro.

    Beijos. =)

  5. Sem querer restringir o seu texto (muito bem escrito), que fala de uma questão muito mais séria e profunda acerca da proibição da nossa querida cervejinha nos estádios, bateu um saudosismo danado quando li: “…No segundo tempo da preliminar, era casa cheia, torcidas inflamadas, clima de clássico…”. É verdade cara, que saudade desse tempo. Eu ia a pé pro Maraca, cansei de ir sozinho, e até jogos de outros times, só pra tomar uma cervejinha e ver uma partida de futebol. Quando me tiraram o prazer de tomar uma cerveja, me caparam. Agora virei membro da “Soflá”…é cervejinha e PFC. Ir lá pra puta que pariu (leia-se Engenhão) pra ser tratado como marginal pela PM, pra ver um futebol lixo, seco e ainda por cima pagando? Tô fora.

    • futequim disse:

      Pois é. E eu entendo quem opta pelo PPV. Ainda vou lá dar cabeçada, prefiro o estádio cheio, coloco pilha em torcedores de sofá, mas a verdade é que, hoje, é muito mais atrativo ficar no conforto do lar mesmo. Preliminar de juniores era bom demais rs.

      Abraço!

    • Mamá disse:

      Disse tudo. O Engenhão não é coisa de Deus. Lá na casa de Noca, acesso escroto, estacionamento caro foden#$ (pode falar palavrão aqui? ) e ainda somos tratados como marginais.

      O que fizeram com a alegria do povo? O.o

      Beijos. =)

  6. alevldantas disse:

    Muito bom o texto! Pode escrever mais que vou acompanhar o blog! haha

    Da parte da cerveja nos estádios emiti uma opinião parecida no meu blog: http://dantastico.blogspot.com.br/2012/03/polemicas-os-gigantescos-nadas.html

    Da parte das organizadas, concordo com o que disse, apesar de não ser assíduo frequentador de estádios.

    Abraço.

  7. Luiz Carlos Máximo disse:

    Em relação à venda de bebida na Copa, a classe média alta, que terá acesso aos caros ingressos,que compre a briga.
    A proibição da venda nos estádios brasileiros não têm a ver com a briga de torcidas fora do estádio, mas dentro. E eu que sou um zé maraca de quatro costados, constato que realmente os conflitos entre organizadas dentro do estádio e brigas entre ‘desorganizados”, se não acabaram, reduziram bastante. Como exemplo cito um depoimento de um ex-chefe de torcida do Vasco sobre o assunto: “A gente chegava cedinho no Maracanã e já começávamos a beber. Na hora do jogo já não tinha ninguém mais legal. E aí, tem aqueles que o álcool os torna agressivo e machão. Era difícil segurar. Inventavam de invadir o outro lado… que também já tinha bebido. Qualquer coisinha a porrada comia.”
    Não faço apologia contra bebida como também acho um saco a apologia favorável. Considero a medida correta. E tenho certeza que os senhores estão conseguindo enxergar o jogo melhor. Pelo menos no segundo tempo, quando o efeito do que se bebeu lá fora já diminuiu (rs). Saudações e parabéns pelo blog.

    • futequim disse:

      A questão é justamente essa: o cara não deixa de beber, ele começa a beber mais cedo e fica lá fora. O cara continua entrando errado e, sem cerveja, leva maconha, pó, vodka – que é muito mais forte que cerveja. O que reduziu a briga dentro do estádio foram as cadeiras e as divisões. A briga de TO não tem a ver com essas três ou quatro cervejas que o cara bebe na arquibancada. Também sou frequentador habitual de estádio e discordo dessa diferença em relação aos não-organizados. Um incidente ou outro acontecia e ainda acontece. E tem que tirar do estádio, mas sem que a franca maioria pague por isso. Eu acho a medida absolutamente inócua. Vamos discordar nessa, amigo. Abraço!

  8. Leonardo Rodrigues Dahi disse:

    Excelente texto.
    Aqui em SP funciona assim (pelo menos no Pacaembu):
    Não se vende cerveja nos estádios, mas na própria Praça Charles Müller, sim (uma vez que a região é tomada por casas em volta, e não bares como no Rio). De uns tempos para cá, proibiram a venda do sanduíche de pernil no estádio. Embora ainda se encontrem barracas umas quatro ou cinco ruas depois, não é a mesma coisa. A graça era comer na Praça Charles Müller, vendo a torcida entrar no estádio, a movimentação dos ambulantes que vendem camisas piratas…

  9. Leonardo Bagno disse:

    Muito bom. Cutuca o pus da ferida como deve ser cutucado.

    Poderia ter tacado mais pedras ao Ministério Público que, ao meu ver, é o principal culpado de tudo de ruim que acontece em nossa sociedade, pois eles têm a capacidade de atuar e melhorar, mas preferem virar o rosto e olho para o outro lado.

    Entretanto, o que foi dito está de excelente tamanho. Excelente!

    Parabéns pelo texto e que continue atualizando o blog com frequência para, quem sabe, alcançarmos alguém neste mundo de cabeça para baixo em que vivemos.

    Valeu!

    • futequim disse:

      Valeu a força, Léo! O caso é tão abrangente que dá pra fazer um livro. Mas arrumaram uma muleta e estão apoiadas nela até agora. Alguma hora, ela quebra e eles caem.

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