Atlético, Leicester e a vitória do esquema 7-5-2 (da Vulcabrás)

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

Gostaria de abrir este texto com uma informação absolutamente desimportante para a humanidade, mas relevante para a crônica: eu gosto mesmo é de time com um Trêspanador, um Cincão porrador e um Novezão matador. Ponto.

Parágrafo. Linhas de três, de quatro, 4-2-3-1, tiki-taka… Há quem adore termos táticos. Há quem ache que termostáticos são os ramos da física que tratam do equilíbrio térmico. Eu gosto mesmo é de… já disse. Não que considere o desenho de um time em campo inútil e os técnicos, adereços. Pelo contrário. Sou dos que acreditam na importância dos treinadores.

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Simeone dá um tapa no delegado do jogo: mesmo estilo como jogador e técnico

Está ficando contraditório, eu sei. Vamos lá. No pós-7 a 1, surgiu automaticamente uma demonização do modo como o futebol é praticado no Brasil e, com toda a transmissão disponível dos campeonatos europeus, passamos a ver os jogos sob a ótica de setas, mapas de calor e porcentagens. Não resta dúvida que a evolução do jogo em campo passa pelo estudo e pela tecnologia, e que o “maré-maré, jacaré-jacaré” se afoga até no Acreano. O problema é o exagero de acreditar que todos os times são capazes de mostrar bom futebol. Nem no Play Station.

O preâmbulo ao estilo “cenas lamentáveis” é para exaltar dois times: Atlético de Madrid e Leicester.

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Imortais, em Copacabana: vá!

– Ah, sabia! Olha, eu prefiro o futebol de toque de bola do Bayern. Não gosto da catimba e da cera do Atlético. É a cara do Simeone – diz um grande amigo em resenha na calçada do Bar Imortais, em Copacabana (vá, é ótimo!).

De cara, sou fã do Simeone jogador e técnico. E, como têm sua cara, os colchoneros jogam um clássico futebol “chuteira preta”. Não há como ser diferente. Como enfrentar equipes extraterrestres como Bayern, Barcelona e Real e todo o abismo financeiro que existe entre eles e o resto da galáxia? É marcação (ok, pancada), contra-ataque (ou bicuda mesmo), gol achado e fura a bola. Se for preciso, um empurrão no delegado do jogo (eita, Cholo…).

Deu-se agora de chamar de “Cholismo”. “Meu esporte é ganhar”, disse o técnico. Exatamente. De forma não muito diferente, o Internacional venceu o Barcelona no Mundial na base do “Abelismo”. Acredito que Abelão assinaria embaixo.

– Mas é jogar como time pequeno, abdicar do jogo – reclama outro amigo.

Qualquer clube que enfrente este trio e mais dois ou três ETs automaticamente vira time pequeno – o que não quer dizer que não possa vencer. É futebol. Abdicar do jogo seria entrar de peito aberto, tocando a bola – e levando sete côcos lá atrás. Como se faz frente a quem consegue manter 80% de posse de bola? Se só há 100% diponíveis, trate de se virar nos 20% que te restam.

Sapatadas e título na Inglaterra

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7-5-2 da Vulcabrás: mais um sapato, um estilo de jogo

E se é enorme o feito do Atlético de Madrid, classificado para a final de mais uma Champions League, o que dizer do Leicester, campeão inglês? Já não se trata de futebol “chuteira preta”, mas de uma tática 7-5-2 (da Vulcabrás).

De provável rebaixado a campeão, o pequeno gigante clubes inglês contou a mais incrível história de que se teve notícia nas últimas décadas. Para explicar nos mínimos detalhes como a epopeia se deu, há diversos blogs mais entendidos que o nosso Futequim. Mas, daqui do balcão, é possível dar uns pitacos.

Não teve: grande cota de TV; patrocínios milionários; craque de capa de Fifa Soccer; técnico de grife; posse de bola; 90% de passes certos; apito amigo.

leicester

O incrível aconteceu: como não torcer?

Teve sim: marcação fortíssima (ok, pancada também); organização tática – sem planos infalíveis do Cebolinha; passe errado; 1 a 0; técnico desacreditado vendendo um sonho; 1 a 0; jogadores bons e medianos comprando a ideia; 1 a 0; torcida lotando estádio em busca do impossível.

Como não torcer por este filme da Disney? Dispenso os milionários Chelsea, City e United. Um conto de fadas assim tem a periodicidade do Cometa Halley. Aproveitemos.

Às vezes, uma força da natureza traz a reboque um Maradona para jogar bonito e vencer. É raro. Futebol bem jogado é sempre melhor? Claro. Mas, se não for o caso – e não é -, só o “cholismo” salva.

E fura a bola!!!

 

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Bar: lugar de fazer Imposto de Renda – e muito mais

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

– Qual o melhor bar do mundo?
– Pô, do mundo? Sei lá. Tem bar pra caramba.
– O bar perto de casa, ora.

guinetoÉ na resenha de balcão que nascem muitas das sabedorias populares consagradas pelas esquinas Brasil afora. “Lar, meu doce bar”, canta Almir Guineto, refestelado numa taça gigante de champanhe, em capa de disco só menos sensacional que a famosa do Tom Zé. Aquela.

Quem curte um botequim sabe: é mesmo o bar perto de casa o melhor do mundo. Empatado, ombro a ombro, com todos aqueles nos quais você é tratado com carinho pelos garçons; tem amizade sincera por clientes habituais da casa – mesmo sem saber o nome de todos; cultiva uma relação familiar com o dono, até porque o vê mais do que a grande maioria de seus parentes.

“Bares estragam vidas!”, dirá um fanático religioso. Algumas, talvez. Mas salva outras tantas em situações variadas. Ou vejamos.

É a data comemorativa de uma grande tradição nacional, um costume gerado por anos de miscigenação que só um povo criativo como o nosso é capaz de proporcionar. Refiro-me aos festejos do “Último Dia de Entrega do Imposto de Renda”, edição 2016. Ao sair da Barra às 19h, deparo-me com duas horas e meia de trânsito, sob chuva.

No meio do caminho, ali pela Praça Sibélius, a coisa começa a ficar interessante.

– Acabou a luz – chega o aviso, diretamente do humilde cafofo.
– Linda, já baixou os programas da Receita?
– Então… Eu ia baixar, mas aí…

Ok, não baixou. Sem problemas. Basta rotear pelo celular. Subo escada, chego em casa, ligo o laptop e… 7% de bateria. Pego o outro computador e… 6%. São 21h45. Sem pestanejar, pego uma mochila.

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Bar do Serafim, na Rua Alice, em Laranjeiras

– Vamos!
– Pra casa da minha irmã?
– Não, pro Serafim!
– Aff…

O excelente bar da Rua Alice, também conhecido como anexo de casa, tem luz e internet. Entre risadas dos amigos e dos garçons, e curiosidade de outros conhecidos, sacamos aquele monte de papel, começamos a preencher os dados.

Quatro chopes depois, às 22h40, missão cumprida: não foi desta vez que o leão nos pegou. E ainda cabe saideira antes de subir a escadaria novamente. A luz? Voltou à 0h02, logo após o fim do prazo. A Light, sabemos, também é da zoeira.

O milagre da multiplicação

Um dia antes, chego no enorme Bip Bip, às 22h03. com dois reais na carteira e sem possibilidade de sacar dinheiro no caixa eletrônico, já desativado.

– Neném, tô sem dinheiro, mas…
– F@d#$-se, p%#$, pega o que você quiser, depois me dá – diz o, sim, doce Alfredinho, um amigo, um pai, um avô, um parceiro de viagem, uma figura ímpar.

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Alfredinho, no Bip Bip

Oito latinhas depois…

– Neném, foram oito. Depois a gente acerta.
– PERAE!!! – dispara, numa voz grossa que seria um misto de Lula com Joe Cocker.
– O que houve?
– Leva um dinheiro aqui, vai andar sem nada? Tá doido?

Conclusão: cheguei duro, bebi e ainda saí com dinheiro no bolso.

Outro puxadinho em Copacabana

E como toda boa noitada sempre acaba no Galeto Sat´s, fica difícil saber em quais madrugadas as histórias acontecem. É no boteco do Serjão – outro amigo que de tão querido virou família – que as resenhas se alongam até o dia clarear. Onde não se decide coisa alguma, conclui-se muito pouco, mas, como a memória fraqueja, as pautas voltam numa espécie de looping delicioso.

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Serjão, no Sat´s

– Ô, arr%$#%&do, quando é que vamos beber aquela cerveja e pegar uma piscina de novo?

Sim, esporro é sempre sinal de carinho. De carona a infinitas saideiras, pizza no balcão e turismo pelos melhores bares do Rio, Serjão oferece de tudo um muito. Com sua intensidade e carinho, faz amizade em fila de banco.

E eu fico por aqui, pensando se existe algum outro lugar onde você consiga fazer o Imposto de Renda, receber afeto, comer além do que pediu, beber como se não houvesse amanhã, ganhar convites na base do esporro – e ainda sair com um qualquer no bolso?

Lar, meu doce bar, sei lá, sei lá, sei lá.

 

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Como a justiça em Hillsborough descortina velhos chavões

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

A conclusão do inquérito da tragédia de Hillsborough, que aponta as autoridades inglesas – e não os torcedores – como culpadas pelas 96 mortes e centenas de feridos descortina questões e estapeia muitas caras tanto na Inglaterra quanto no Brasil.

Antes, a quem não conhece, a explicação. Em 15 de abril de 1989, no estádio de Hillsborough, Liverpool e Nottingham Forest duelaram pelas semifinais da Taça da Inglaterra. Com as arquibancadas superlotadas, a catástrofe se consumou. Durante anos, o as autoridades jogaram nas costas da torcida toda a culpa pelo caso. A versão oficial foi comprada durante décadas – até o último dia 26 de abril, quando a verdade foi restabelecida. Houve erro. Houve negligência. Houve fraude de provas. Houve de tudo.

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Tragédia de Hillsborough: após 27 anos, justiça aos mortos

A decisão da Justiça inglesa mostra que, lá como cá, a sociedade de modo geral e grande parte da imprensa (da qual faço parte), com seu poder de formar opiniões, têm como péssimo habito cair no chavão, no lugar-comum, de, enfim, comprar sempre a versão oficial.

– São vândalos!
– A polícia agiu com rigor, como deveria!
– Não tinham nada que estar em campo!
– Quem vai com a família não se mete em confusão!
– É mole resolver! Lugar marcado, todo mundo sentado e preço alto!
– Clássico de torcida única!
– Isso é culpa da cerveja! Proíbe que acaba!

Basta um tumulto estourar nas arquibancadas para que chovam falsas soluções que nada resolvem e por um simples fato: quem as concebe dificilmente vai ao centro da confusão ou sequer tem interesse em entender o que ocorre. Vale a posição da PM. Repete-se uma pá de frases prontas e, bom… vamos aos comerciais.

Não é preciso dizer o quanto é injusto e revolta quem só queria ver um jogo de futebol – e muitas vezes sequer volta para casa. O spray de pimenta que faz famílias inteiras chorarem não entra nas cabines com ar condicionado ou nos estúdios geladões, nem vem incluído no pacote de PPV. Ainda não inventaram TV 3D que solte cheiro. E aí fica fácil.

No entanto, se o spray não influencia em opiniões enlatadas, a mobilização muitas vezes obtém melhores resultados. O inglês “Times”, que tanto criminalizou os torcedores, não se fez de rogado e escondeu a notícia de sua capa do dia seguinte ao julgamento. Após chuva de reclamações, o jornal se viu obrigado a publicar nova primeira página, desta vez com destaque para o caso. Se não há mea culpa por vergonha, que seja por pressão.

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Familiares cantam “You’ll Never Walk Alone”

É de cantar junto, chope em mão e lágrimas nos olhos – bem cafona assim – o vídeo das famílias das vítimas, após a audiência, entoando “You’ll Never Walk Alone”, clássica música do Liverpool. É o sentimento de, 27 anos depois, ter seu parente querido absolvido de sua própria morte. É a canção do triunfo. É a única vitória possível em uma partida que até então só contava perdedores.

Enquanto isso, por aqui…

Na última semana, houve a final da Primeira Liga entre Fluminense e Atlético-PR em Juiz de Fora, em um estádio de modelo antigo. Cimento, torcida de pé, pirotecnia. Fim de jogo, título tricolor. Os jogadores vão para a grade. Torcedores se aglomeram por ali para festejar junto aos heróis. A PM chega. Alguns tentam invadir o campo. O que fazem os policiais, em tese preparados para a situação? Pegam estes poucos e os conduzem para onde quer que seja?

Não, claro que não. Como quem joga “Bom Ar” num carro fechado ou, para ser mais emblemático, “Baigon” em baratas e insetos, as forças policiais começam a despejar, a esmo, spray de pimenta, que logo chega a boa parte da arquibancada, iniciando pequenas correrias. Há, evidentemente, reação. Ninguém é inocente de achar que muitos componentes de organizadas não são beligerantes e não gostam de tumulto. Só que a ordem dos fatores entre ação e reação é importante neste caso. Ainda mais quando parte de quem deveria ser responsável por manter a paz.

Vai a sequência. Bombas de efeito moral atiradas sem qualquer precisão ou motivo no meio da arquibancada. Bombas de gás lacrimogêneo. Balas de borracha. Muitas. Em qualquer lugar que houvesse concentração de pessoas – o óbvio em um estádio lotado. A clara intenção era esvaziar o local.

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Flu recebe a taça. Em uma das arquibancadas, quase ninguém vê após ação da PM

Idosos passando mal, crianças chorando, homens e mulheres que só queriam ver o Fluminense erguer o troféu foram obrigados a realizar verdadeira trilha pelo mato. E é justamente o inusitado formato do estádio, com uma floresta acima das arquibancadas, que impediu uma tragédia – ou haveria pisoteamento, não tenho dúvida.

Quando finalmente a taça foi entregue, um lado da arquibancada estava completamente deserto, enquanto o ar empesteado de “lei e ordem” ainda maltratava os tricolores.

– Ué, mas eu vi os caras falando que a polícia havia agido de forma correta… – questiona um amigo que ficou no Rio e não soube de nada além do que foi mostrado.

Como de hábito, todas as opiniões caíram na série de comentários feitos acima. Já escrevi sobre questões semelhantes aqui no Futequim: cerveja; torcidas organizadas; jogos fora. Como chavão e lugar-comum não resolvem coisa alguma, os problemas persistem. São como espuma de chope ruim, somem em menos 30 segundos.

O mundo à parte que vive o futebol

E, sob o manto das falsas soluções, destroem culturas fundamentais do futebol, afastam o povão do estádio, matam pouco a pouco o esporte – e nada melhora. De que adianta, para ficar em um exemplo atual, fazer clássico com torcida única se as organizadas se matam a quilômetros de distância do jogo? É para resolver ou para dar satisfação, normalmente a quem não vai às partidas? Fácil dizer.

Que o futebol vive em um mundo à parte, ninguém discute. Em qualquer outro lugar, se alguém morre, o evento termina. Não no planeta bola. Em boa dose porque, quem possui o poder de resolver os problemas, não tem rigorosamente a menor ideia do que está fazendo.

Campeonato Brasileiro 1992 - Botafogo x Flamengo

Maracanã 92: mortos e jogo até o fim

É ou não é uma realidade paralela? Em 1992, no Maracanã, a grade da arquibancada cedeu, pessoas morreram, e a decisão do Brasileirão não parou. Em Heysel (Bélgica), 1985, 39 mortos e bola rolando até o fim. Em 2000, em São Januário, o confronto só não foi reiniciado por intervenção direta do governador do Rio de Janeiro.

O bicho pega, mas o show não pode parar. Estamos a cada rodada esperando nosso Hillsborough, nosso Heysel, um novo Maracanã.  E já temos os culpados – e os inocentados. Morreu alguém? Paciência.

Morreu na contramão atrapalhando o sábado – de futebol. E a culpa é dele, dirão.

 

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Modernice entra em campo e finca um mastro no torcedor

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

Você pode substituir a pirotecnia por umas cheerleaders; bandeirinhas e bandeirões por bastões infláveis de banco e caxirolas; cimentão por confortáveis cadeiras; coreografias por gritos comandados pelo telão; mascotes por uma corrida alucinada à la Wiliam Wallace.

E você pode, finalmente, substituir também o futebol por, sei lá, teatro. As dicas de trocar bacon por alface estão deixando também o velho esporte bretão cada vez mais insosso. Como se não bastasse afastar os adultos, a modernice desenfreada agora trata de alijar também as crianças. É uma surpresa a cada rodada.

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Wallace finca bandeira: Fla deixa mascotes para trás em corrida sem o menor tato

A cena da entrada do Flamengo em campo contra o Vasco é triste sob muitos aspectos. Não pela quebra de protocolo, uma grande chatice. O principal, claro, é ver crianças com cara de que o Play Station pifou ao perceberem seus ídolos passando batidos. Já vi esse mesmo olhar em muito marmanjo ao saber que a cozinha do bar fechou e não vai rolar saideira. Só que bode velho sobe a colina e volta no dia seguinte. Com criança magoada, o sino toca diferente.

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Bode Cheiroso na Copa: excelente bar

– Opa, falando nisso, vamos ao Bode Cheiroso continuar essa resenha. Quais são os outros aspectos tristes afinal? – diz um amigo, num misto de intimação, prontamente cumprida, e questionário.

Vamos à resposta. Há uma percepção cada vez maior de que os jogadores estão sendo criados em bolhas, frios e indiferentes ao mundo que os cerca. Não há aeroporto lotado, saguão de hotel recheado de crianças, torcida esbaforida que os façam tirar, por um minuto, os aquecedores de orelha que  chamam de fone.

Blindados por uma sequência interminável de assessores – do clube, pessoal, assessor do assessor… -, os atletas cada vez menos dão entrevistas. E o fazem como uma enorme concessão. Como se o principal motivo de uma coletiva não fosse dar satisfação ao seu torcedor.

Problema detectado. Mas as soluções…

Ou seja, o diagnóstico está perfeito. A encrenca está nas soluções. Muito da falta de identidade do torcedor com os jogadores – e vice-versa – vem justamente desse afastamento de pequenos detalhes que tornam a atmosfera de um estádio tão apaixonante. E é ali, no cimento, naquela catarse inexplicável, que nasce o amor pelo esporte. Aprendemos desde cedo. Nós, os bodes velhos. Mas estão tolhendo este sentimento dos cabritos.

criança

Criança e ídolo: não tem preço

– Podes crer. Quer um exemplo? Filho, qual é o time do teu primo?
– Barcelona, pai.
– Imagina a irritação do pai…

E o aspecto mais triste, a meu ver, é que as soluções encontradas passam, novamente, por modernismos. Fico imaginando uma reunião entre essa turma.

– O que podemos fazer para empolgar o torcedor?
– Hum… E se a gente fizesse uma entrada como as da NFL? Ou um Hakka? De repente, colocar um rock and roll no sistema de som? Cheerleaders com pompons!
– CARA, você é um gênio! Toma aqui um aumento!
– Obrigado, obrigado, bondade sua…

genio

Gênio da lâmpada: mais real do que parece

E assim, em rompantes de genialidade, os clubes, em nome de uma modernice deslumbrada, de uma vira-latice cafona, vão buscando inspiração em culturas e esportes que nada têm a ver com o nosso jogo. Não há bandeira. Apenas um mastro, tal qual uma estaca, fincado bem no meio do peito do nosso futebol.

Nada disso funciona. Nem funcionará, não tem como. Chico Buarque certa vez sentenciou que falta ao Brasil criar o “Ministério do vai dar merda”. É isso. Porque ter ideia ruim é normal. Quem nunca? O grande culpado, porém, é o sujeito que diz “boa ideia! Gênio!”. Os clubes têm diretor de ar condicionado, supervisor de estacionamento, vice-presidente de peteca… Urge a contratação de um diretor do “vai dar merda”.

E seria este profissional que entraria na sala, ouviria pacientemente as ideias e, de forma ponderada, calma, com muito tato, diria:

– VOCÊS ESTÃO MALUCOS? ISSO AQUI É FUTEBOL. TCHAU.

Então, como uma luz divina, um big bang intracraniano, os distintos dirigentes perceberiam que a resposta para o futuro está no passado. Nunca foi preciso de muito.

NFL é NFL, NBA é NBA. Ótimo. Mas, no olhar das crianças que ora andam desiludidas, é preciso que futebol volte a ser futebol.

Ou vai dar m…

 

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A internet voa, a lerdeza cresce, e o mundo fica mais devagar

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

– Viu o que rolou no jogo de ontem?
– …
– Hein?
– Quê?
– O que te perguntei.
– O quê?
– Veio aqui pra resenhar ou pra ficar no celular???

Quem já não foi protagonista de uma “conversa” destas, de um lado ou de outro? Vivemos num momento de bombardeio de informações, de interações virtuais, de estar por dentro de tudo o tempo todo. É difícil ficar alheio por muito tempo. Não há como fugir.

zumbi

Walking dead? Não, mas quase… E sai da frente!

O que só torna ainda mais contrassenso o fato de que tanta tecnologia está tornando o mundo real mais lento. Não só lento, mas lerdo mesmo. Categoria lesma ladeira acima. Cágado manco.

Ao andar na rua, o que mais se vê são pessoas com o celular em punho. Ali, naquela telinha diminuta, é o próprio The Flash. Manda meme no Whatsapp, curte foto fofa de cachorro no Facebook, retuíta o Joaquin Teixeira, dá match no Tinder, volta para o Wapp para mandar um paaaaahhh… Tudo em 30 segundos.

Fora da telinha, porém, a agilidade mais se assemelha à de um zumbi. Passos lentos, desatenção aos carros, às bicicletas, aos sinais. Quem nunca ficou atrás de alguém assim em uma rua estreita, tentando ultrapassar pela direita, pela esquerda, por cima, por baixo… e nada? A agonia não tem fim.

wappAs obras espalhadas por todo o Rio de Janeiro acabaram com o trânsito da cidade – ao menos até a conclusão delas. Não há mais hora. Concordo. Mas não me parece absurdo constatar que os smartphones estão colaborando com os engarrafamentos. A pessoa para no sinal e vai lá dar aquela checadinha, por que não?

Impeachment? Tragédia na ciclovia? Semifinal de Carioca? Ah não, espera aí, eu tenho que dar minha opinião agora e… FOOOOOOOOOMMMMMMMMMMM, tome buzina. O sinal já estava aberto. Reclama, larga o celular, passa a primeira e, enfim, anda. Logo o sinal fica amarelo e só dois carros passam. O último, também distraído, não percebe que fechou o cruzamento. E o processo se repete na rua perpendicular, num movimento que vai durar durante toda a hora do rush.

Multiplique isso por milhares de carros em centenas de cruzamentos e perceba o quanto essas pequenas demoras pioram o que já é lamentavelmente lento.

E é possível dar inúmeros exemplos. Como quem chega em um restaurante e demora eras para escolher algo, entre um check-in e outro. Aumenta o tempo, cresce a fila, potencializa a insatisfação. Todos perdem. Menos, claro, a rede social, que não poderia sobreviver mais um minuto sem saber o que a pessoa estava comendo. Questão de segurança nacional.

A dura tarefa de tentar

De minha parte, posso dizer que precisei diminuir drasticamente minhas interações para, de certa forma, me libertar um pouco. Não é fácil. Já me irritei bastante com amigos quando ouvia “larga o celular!”. É meu, ora. Mas depois de um tempo, ao notar que eu estava apenas de corpo presente nos chopes, nas rodas de conversa, tive que me forçar a melhorar – a palavra é essa, não tem para onde correr.

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Ultrapassar? Só pela rua…

Não é fácil. As notificações são viciantes. E os aplicativos estimulam a obsessão. Basta um ctrl+c e o Facebook já pergunta se você quer postar o link. É esbarrar em um botão errado e mandar um nudes sem querer – eu não, claro, mas tem gente aí que…

Veja se não reconhecem outro tipo que anda pelas esquinas e bares. Aquele que é um leão nas redes sociais, faz textão, compartilha de tudo, mil opiniões, conflitos, o diabo a quatro. E, ao vivo, mal fala. Para extrair um diálogo minimamente fluente é um parto.

A internet é um caminho sem volta – e ainda bem! Só ainda falta entender seu bom uso. Principalmente, com as redes sociais. A ideia de sua criação certamente não é perder amigos, brigar com familiares, ser demitido por escrever bobagens ou até mesmo acabar preso. Mas, na falsa segurança do teclado, moderação passou a ser artigo raro. Refletir tornou-se atividade de um minuto ou dois.

E se fica mais lento, o mundo fica também mais individualista. O que é a selfie – e seu abominável pau – se não evitar ter que pedir para alguém tirar uma foto para você? O que é o Tinder se não deixar de lado o bom papo, o risco do “não”, o frio na barriga, para chegar logo no fim, como se o meio não fosse interessante?

A luta é diária, a tentação de pegar o celular a todo momento é enorme, mas a resenha há de vencer. Desconectar-se um pouquinho é preciso. Ou ao menos há que se tentar. Nem que seja para não enrolar o trânsito.

– Larga esse blog e vem beber que hoje é sexta! –  leio, diretamente do balcão do Sat´s, via Whatsapp, claro.

Ok!

Ah sim, mandar nudes continua liberado, obrigado, de nada.

 

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Botequim x Cartório: qual o seu lado na Primeira Liga?

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

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Taça da Primeira Liga: ainda é bonita

No balcão do bar, um grupo de tricolores marca a ida para Juiz de Fora. Sai às 14h ou 15h? Reserva hotel ou faz um bate-volta? Já comprou o ingresso? Olha que está acabando. Se ganhar, a comemoração será onde? É véspera de final da Primeira Liga, contra o Atlético-PR. Em Curitiba, a cena se repete entre rubro-negros.

Eis que surge na roda, entre braços mais altos, tal qual um tatu se embrenhando na terra, um rival, possuído pelo espírito de porco, que não pode faltar em finais.

– Vocês estão de sacanagem que vão se preocupar com esse torneio amistoso, né? – diz o criador do caos.

Afinal, vale ou não vale título a edição inaugural da Primeira Liga? Vamos retroceder no tempo. Nos meus tempos de garoto… Eita expressão de velho. Bom, nos meus tempos de garoto, os clubes exaltavam suas conquistas em torneios não-oficiais. Teresa Herrera, Ramón de Carranza, Copa Kirin, Torneio de Paris, todos tinham lugar de destaque nas salas de troféus. È preciso ressalvar que antigamente havia menos competições com chancela superior e, com isso, mais amistosos, não só pelo Brasil como pelo mundo.

Para exemplificar, de acordo com levantamento da revista argentina “El Gráfico”, dos 1285 gols de Pelé, 757 gols foram em jogos oficiais. Assim, o Rei do Futebol fica atrás de Romário e do tcheco Josef Bican (?) na artilharia de todos os tempos.

Mas… a ideia é justamente fugir do oficialismo e da numeralha. Aqui, é resenha. Vamos, pois, a ela.

– A CBF não reconhece! – brada o Zé da quizumba.

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Torcida no cartório em busca de certidões

Pois é. É de se notar uma mudança no torcedor brasileiro há um bom tempo. Além de estar ficando mais chato (assunto tratado aqui), tem ficado também mais cri-cri. Se não tiver o selo da Fifa, o carimbo da CBF, registrado em cartório, três vias, pagamento de duas taxas, averbação da casamento e certidão negativa de débitos na Receita Federal, ufa!, naaaaaaão vale. E ponto.

E aí fico pensando cá com minhas bolachas de Brahma descascadas pelo bom e continuado uso: qual a credibilidade que pode ter um selo da CBF, uma chancela da Fifa, a ponto de o sujeito se impedir de comemorar uma conquista, seja ela qual for? “Olha, veja, o Blatter não aprova, o Marín não ratificou, melhor ficar em casa”. Ora, me poupem.

É evidente que não se trata de um torneio de primeira grandeza. Ainda. E pode nem vir a ser. Os mais otimistas veem nela um embrião para a necessária Liga de clubes. Pode acontecer? Se os paulistas, principalmente, comprarem o barulho, pode sim. Mas não é disso que trata este texto – ou voltaremos às oficialidades.

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Se eles não aprovam, melhor não comemorar?

É um torneio em que seis dos maiores clubes do Brasil participaram. Além de outras forças importantes do futebol nacional. E não jogou quem não quis. Foi transmitido na televisão. Terá final em cidade neutra, e os torcedores de Flu e Furacão vão esgotar os 30 mil ingressos. Em que mundo ganhar esse caneco não é motivo para fazer as ações da Ambev e da Heineken subirem? Certamente no planeta rodoviária, aquele habitado por malas. Óbvio.

A Copa Sul-Americana aos poucos vai adquirindo o peso que lhe cabe. Já foi um campeonato que todos queriam vaga, mas ninguém jogava para valer. A Copa do Brasil já foi chamada de “caça-níquel”. No primeiro título do Flamengo, em 1990, o jogo de ida ocorreu na mesma Juiz de Fora para um público mínimo, contra o Goiás. E quem há de dizer que o Fla não é tricampeão? Está lá, conta, é tri e fim de papo.

– Qual a finalidade desse campeonato mequetrefe? Dá vaga pra quê? – insiste.

De cara, garante vaga ao botequim, ao camarote da pilha. Que o torcedor do Fluminense ou do Furacão aproveite o feriado de quinta-feira e só volte para casa sujo, rasgado, inebriado, bandeira em punho, com a certeza de que o futebol vale a pena pela bola na rede, não por selos de quem não merece o suor dos seus apaixonados e fiéis seguidores.

Não é por Deus, pela família, pelos meus filhos e netos, pela paz em Jerusalém, pelos corretores de seguro do país, pela Fifa, pela CBF.

É pela resenha, pelo bar, pela zoação, pelo torcedor, pela bola na rede, pela chuteira preta, pelo futebol enfim: a Primeira Liga é título sim.

 

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O melhor, o maior ou o mais vencedor? A eterna resenha

Por Emiliano Tolivia (@ToliviaEmiliano)

Um assunto que faz tanto sucesso quanto lista em internet é brincar de “quem foi o melhor…” em balcão de bar. Eleger o grande jogador de um clube é uma árdua tarefa para chopes e mais chopes – e no fim, não se decidir coisa alguma.

A meu ver, esse debate, delicioso como um polvo ao vinagrete e espinhoso como uma corvina frita, parte de premissas erradas. O que define, afinal, um ídolo? A qualidade, os feitos e/ou a identificação? O que é ser maior? É o mesmo que ser melhor? Ídolo não é necessariamente craque. E vice-versa. São infinitas as possibilidades, mas faltam horas de funcionamento aos bares para esgotar o assunto.

Pelé

Pelé nos braços do povo: milésimo gol do maior de todos os jogadores

Alguns poucos casos agregam todos os quesitos em uma resposta só. Mas logo começam as divergências. Ou vejam se não é assim:

Cachaça A: – Maior ídolo do Flamengo é o Zico, sem dúvida. Como Pelé no Santos

Cachaça B: – Verdade. Assim como o do Vasco é o Roberto.

Cachaça C: – Opa! Não me vem com Roberto. Pra mim, já é o Juninho. Como o Zico no Fla eu diria que é o Garrincha no Botafogo.

Cachaça A: – Olha… Dá pra dizer que sim, mas… Pra mim, já é o Nilton Santos. É meu ídolo. Isso muda com o tempo. Vê o Fred no Flu.

Cachaça B: – O que tem o Fred? Maior ídolo? Contemporâneo pode ser, mas tem Castilho, Assis… E se quiser saber, eu prefiro o Conca.

Cachaça C: – Afff… Dá três chopes, por favor.

O caso do botafoguense mostra como, com o passar do tempo, a presença física de um ídolo pode fazer a diferença. Impossível questionar que Garrincha tenha sido o melhor. Porém, Nilton Santos esteve junto do clube até o fim de sua vida e conquistou o carinho de quem nunca o assistiu jogar – nem a ele nem a Mané.

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Rivellino: dividido entre Flu e Corinthians

Mesmo caso se aplica a Fred. Melhores que ele dá para citar alguns na história do Flu. Gerson, Didi e Rivellino, apenas para formar um meio-campo histórico de encerrar discussões. Só que título conta. Representatividade conta. E tantos outros fatores contam nessa equação que não passa nem perto da matemática. É tudo subjetivo, ao sabor do cliente, que vai tentar empurrar sua opinião como a única verdade, bolando regra de três e afins – mas é tudo mero palpite.

Pelé é um sujeito difícil de questionar em qualquer campo – esportivo – que seja. Zico é daqueles casos que somam praticamente todas as características para assumir o posto. Ok, vá lá, Renato no Grêmio. Só que, indo adiante, a brincadeira fica divertida.

Inter é o Falcão! (Ou o Fernandão?)
Cruzeiro é o Tostão! (Mas o Alex, hein…)
Atlético-MG é o Reinaldo! (Mas essa Libertadores do Ronaldinho…)
São Paulo é o Raí! (Ou o Rogério Ceni?)
Palmeiras é o Ademir da Guia! (Ou o Marcos?)

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Zico é quase unanimidade no Fla (mas o Nunes…)

Mesmo o corintiano se vê dividido. Rivellino? Marcelinho? Guerrero fez o gol mais relevante da história do clube, mas seu prestígio não chega  próximo do carinho que existe por Basílio e o gol que tirou o Corinthians da fila em 1977.

A relação com o ídolo é extremamente pessoal. Ainda que se reconheça a qualidades de um jogador, a condição de idolatria surge a partir de algum estalo, um brilho no olhar diferente que, provavelmente, carrega consigo a inocência da infância. Tenho amigos que amam o Zico – mas, lá no fundo, eles gostam mesmo é do Nunes. o artilheiro das decisões. Outro amigo viu craques e mais craques com a camisa do Flu, mas o coração bate mesmo é pelo Félix – que sequer é o melhor goleiro da história tricolor. Quer dizer, para ele é. Das Laranjeiras. Do mundo. Da galáxia.

– Tá, escolher o melhor é complicado mesmo. Mas o time de todos os tempos já é mais fácil, abre mais – sentencia um amigo no bar do Zé Borracha, um meia-porta lindamente horroroso na Rua das Laranjeiras, que tem cerveja gelada e atende na madruga aos órfãos do Varandas, bar 24h que virou uma… casa de suco.

Pois discordo. O que vale, novamente, são títulos ou feitos? O Fluminense poderia fazer um time com Ronaldinho, Romário e Edmundo no ataque, por exemplo. Mas tem cabimento tirar um Assis, um Romerito para tal? Não, não tem. Bebeto e Seedorf caberiam numa seleção do Botafogo? Nunca.

Tem o melhor, o maior, o mais vencedor e por aí vai. Reduzir, a meu ver, empobrece o debate, o clube, a resenha.

E o dono do bar.

 

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